Frases de Dom Quixote - A valentia que se não baseia ...

A valentia que se não baseia na prudência chama-se temeridade, e as façanhas do temerário mais se atribuem à boa fortuna que ao seu ânimo.
Dom Quixote
Significado e Contexto
A citação estabelece uma distinção crucial entre dois conceitos frequentemente confundidos: a valentia genuína e a temeridade. A verdadeira coragem, segundo esta perspetiva, deve estar alicerçada na prudência – ou seja, na capacidade de avaliar riscos, ponderar consequências e agir com discernimento. Quando alguém age sem este fundamento racional, o seu ato não é de bravura, mas de precipitação perigosa, a que se chama temeridade. O segundo elemento da frase introduz uma reflexão sobre a perceção social desses atos. As 'façanhas do temerário' – os feitos aparentemente heroicos realizados por imprudência – são mais atribuídas à 'boa fortuna' (ao acaso, à sorte) do que ao seu 'ânimo' (coragem ou carácter). Isto sugere que, na ausência de prudência, o sucesso de uma ação arriscada é visto como um golpe de sorte, não como o resultado de uma virtude ou capacidade pessoal. Desvaloriza-se assim o mérito do temerário, pois o seu sucesso parece mais fruto do acaso do que de uma qualidade interior.
Origem Histórica
A citação é atribuída a 'Dom Quixote', o protagonista da obra-prima de Miguel de Cervantes, 'El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha', publicada em duas partes (1605 e 1615). A obra, considerada o primeiro romance moderno, é uma sátira aos romances de cavalaria e uma profunda reflexão sobre a realidade, a loucura, o idealismo e a natureza humana. Escrita durante o Século de Ouro espanhol, reflete um período de transição entre o pensamento medieval e o moderno. Dom Quixote, com o seu idealismo desfasado da realidade, é paradoxalmente a voz de muitas verdades filosóficas, como esta sobre a prudência.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância extraordinária no mundo contemporâneo. Num contexto social e mediático que por vezes glorifica ações impulsivas e espectaculares (desde desafios perigosos nas redes sociais até a tomadas de decisão empresarial ou política arriscadas sem análise prévia), a citação serve como um alerta atemporal. Lembra-nos que o verdadeiro mérito e a coragem admirável residem em ações ponderadas e informadas, não em gestos impulsivos que dependem da sorte. É uma lição crucial para a liderança, a educação dos jovens e a autorreflexão pessoal.
Fonte Original: Obra: 'El ingenioso hidalgo don Quijote de la Mancha' (Dom Quixote de la Mancha). A citação é uma fala atribuída ao personagem Dom Quixote.
Citação Original: El valor que no se funda en la prudencia se llama temeridad, y las proezas del temerario más se atribuyen a la buena fortuna que a su ánimo.
Exemplos de Uso
- Um jovem que salta de um penhasco para um rio sem conhecer a profundidade pode ser chamado temerário; se sobreviver por sorte, o feito será atribuído à boa fortuna, não à sua coragem.
- Um empresário que investe toda a sua fortuna num setor volátil sem qualquer estudo prévio age com temeridade. Se tiver sucesso, muitos dirão que foi 'sortudo'.
- Um político que toma uma decisão internacional arriscada sem consultar especialistas é temerário. Se o resultado for positivo, a história poderá atribuí-lo mais à conjuntura do que à sua sagacidade.
Variações e Sinônimos
- A coragem sem discernimento é temeridade.
- Quem não é prudente, não é verdadeiramente corajoso.
- A sorte protege os audazes, mas a sabedoria guia os valentes.
- Ditado popular: 'Mais vale um prudente do que dez valentes'.
Curiosidades
Miguel de Cervantes teve uma vida aventurosa e perigosa: foi soldado, ficou ferido na Batalha de Lepanto (perdeu a mobilidade da mão esquerda), foi capturado por piratas e esteve cinco anos preso em Argel. Esta experiência de vida, repleta de perigos reais, pode ter influenciado a sua visão matizada sobre a verdadeira coragem e a imprudência.