Frases de Miguel Esteves Cardoso - Hoje, ser-se egoísta é quase...

Hoje, ser-se egoísta é quase uma coisa boa - chega a ser elogiado como condição necessária - enquanto se vai tornando impossível ou, de qualquer modo, indecorosa, a maior das qualidades humanas, que é o altruísmo.
Miguel Esteves Cardoso
Significado e Contexto
A citação de Miguel Esteves Cardoso critica uma transformação preocupante nos valores sociais contemporâneos. O autor observa que o egoísmo, tradicionalmente visto como um vício, foi gradualmente normalizado e até celebrado como uma condição necessária para o sucesso individual, frequentemente enquadrado sob conceitos como 'autocuidado' ou 'ambição saudável'. Paralelamente, destaca como o altruísmo - a capacidade de colocar os interesses dos outros à frente dos próprios, considerada por muitos filósofos como a mais nobre das qualidades humanas - se tornou socialmente desvalorizado, vista como ingénua, impraticável ou até moralmente questionável num contexto de competição feroz. Esta inversão representa, na visão do autor, uma perda fundamental da essência humanista.
Origem Histórica
Miguel Esteves Cardoso (n. 1955) é um dos mais influentes cronistas e escritores portugueses contemporâneos, conhecido pela sua escrita afiada e crítica social mordaz. A citação reflete preocupações que emergiram fortemente no final do século XX e início do XXI, período marcado pelo auge do neoliberalismo, da globalização económica e da cultura do individualismo, onde valores comunitários e solidários foram frequentemente subjugados pela lógica do mercado e da auto-promoção. O seu trabalho, especialmente as crónicas publicadas em jornais como 'O Independente' e 'Público', frequentemente aborda estas tensões entre o individual e o coletivo na sociedade portuguesa e ocidental.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância acentuada hoje, numa era de redes sociais que frequentemente glorificam o individualismo e a auto-otimização, de crises económicas que exacerbam a competição por recursos, e de debates políticos polarizados entre direitos individuais e responsabilidades coletivas. A pandemia de COVID-19, por exemplo, trouxe à tona tensões entre liberdades pessoais (uma forma de egoísmo socialmente aceite) e o altruísmo necessário para proteger os mais vulneráveis através de medidas coletivas. A citação serve como um lembrete crítico para avaliar que valores estamos, enquanto sociedade, a promover e a premiar.
Fonte Original: A citação é provavelmente extraída de uma das suas muitas crónicas ou ensaios. Miguel Esteves Cardoso é autor de obras como 'A Causa das Coisas' (1991) e 'Portugal: Um Retrato' (2016), onde temas similares são explorados, mas uma fonte exata e única para esta frase específica não é amplamente documentada em referências públicas.
Citação Original: Hoje, ser-se egoísta é quase uma coisa boa - chega a ser elogiado como condição necessária - enquanto se vai tornando impossível ou, de qualquer modo, indecorosa, a maior das qualidades humanas, que é o altruísmo.
Exemplos de Uso
- Num debate sobre ética nos negócios, para criticar a cultura corporativa que premia a agressividade individual em detrimento do trabalho de equipa e do bem-estar coletivo.
- Numa discussão sobre políticas sociais, para argumentar contra narrativas que estigmatizam a assistência social, contrastando-a com a celebração do sucesso individualista.
- Numa reflexão pessoal ou artigo sobre saúde mental, para questionar os limites do 'autocuidado' quando este se transforma numa justificação para a indiferença perante o sofrimento alheio.
Variações e Sinônimos
- "O egoísmo é a única filosofia prática." (Ayn Rand, de forma oposta)
- "Viver apenas para si é viver pela metade." (provérbio popular)
- "Ninguém é uma ilha, completo em si mesmo." (John Donne, enfatizando a interdependência humana)
- "A solidariedade é a ternura dos povos." (Gioconda Belli, celebrando o altruísmo)
Curiosidades
Miguel Esteves Cardoso é também conhecido pelo seu pseudónimo 'MEC' e por ter sido um dos fundadores do jornal 'O Independente' em 1988, uma publicação que marcou o jornalismo português com um tom irreverente e crítico, alinhado com o espírito de questionamento presente nesta citação.