Frases de José Saramago - O que chamamos democracia come...

O que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde.
José Saramago
Significado e Contexto
Saramago utiliza uma metáfora poderosa: a democracia contemporânea é comparada a um 'pano solene' que cobre uma urna funerária, onde o cadáver (os valores democráticos genuínos) já está em decomposição. O pano representa as formalidades e rituais democráticos (eleições, parlamentos) que mantêm uma aparência de legitimidade, mas escondem uma realidade corrompida e vazia de substância. A expressão 'tristemente' reforça o tom de desilusão, enquanto 'reinventemos, pois' é um apelo à ação coletiva e criativa, sugerindo que não basta reparar - é necessário recriar completamente o sistema antes que seja 'demasiado tarde' e a degradação se torne irreversível.
Origem Histórica
José Saramago (1922-2010), escritor português e Prémio Nobel de Literatura em 1998, era conhecido pelo seu engajamento político e críticas sociais afiadas. Esta citação reflete o seu ceticismo em relação às instituições democráticas formais, que ele via frequentemente como dominadas por elites e desconectadas das pessoas. O contexto do final do século XX e início do XXI, com a globalização, o aumento da desigualdade e a percepção de corrupção política, influenciou esta visão. Saramago defendia uma democracia mais participativa e direta, além das estruturas representativas tradicionais.
Relevância Atual
A citação mantém uma relevância aguda hoje, com fenómenos como a desconfiança nas instituições, a ascensão do populismo, a influência desproporcional de interesses económicos na política e a baixa participação cidadã. Em tempos de crise climática, pandemias e desigualdade crescente, a ideia de que a democracia precisa de ser 'reinventada' para enfrentar desafios complexos ressoa fortemente. Movimentos sociais e debates sobre democracia digital, orçamentos participativos ou assembleias de cidadãos exemplificam tentativas contemporâneas de responder a este apelo.
Fonte Original: Provavelmente de discursos, entrevistas ou ensaios de Saramago, sendo comum em suas reflexões políticas. Não está identificada num livro específico, mas alinha-se com obras como 'Ensaio sobre a Lucidez' (2004), que critica sistemas eleitorais e a apatia democrática.
Citação Original: O que chamamos democracia começa a assemelhar-se tristemente ao pano solene que cobre a urna onde já está apodrecendo o cadáver. Reinventemos, pois, a democracia antes que seja demasiado tarde.
Exemplos de Uso
- Em debates sobre reforma política, para argumentar que mudanças cosméticas não bastam e é preciso uma reinvenção radical do sistema.
- Em artigos sobre crise de representatividade, para descrever como os rituais democráticos escondem a desconexão entre governantes e cidadãos.
- Em movimentos de ativismo climático, para justificar a necessidade de novas formas de decisão coletiva que respondam a emergências globais.
Variações e Sinônimos
- A democracia é um cadáver adornado com bandeiras.
- Reinventar a política ou perecer na ilusão.
- As urnas votam, mas o povo não decide.
- Democracia de fachada, podridão de essência.
Curiosidades
Saramago era tão crítico das democracias ocidentais que, em 2007, recusou um convite para discursar no Parlamento Europeu, argumentando que a instituição tinha pouco a ver com a vontade popular real.


