Frases de José Saramago - Estamos numa situação em que

Frases de José Saramago - Estamos numa situação em que...


Frases de José Saramago


Estamos numa situação em que uma democracia que, segundo a definição antiga, é o governo do povo, para o povo e pelo povo, nessa democracia precisamente está ausente o povo.

José Saramago

Saramago revela o paradoxo essencial da democracia moderna: um sistema destinado ao povo que, na prática, parece operar sem a sua presença genuína. Esta ausência transforma o ideal democrático numa sombra do seu propósito original.

Significado e Contexto

Saramago utiliza a famosa definição de democracia de Abraham Lincoln ('governo do povo, pelo povo, para o povo') para destacar uma contradição fundamental nos sistemas democráticos contemporâneos. Segundo o autor, embora a democracia se apresente formalmente como o governo do povo, na realidade prática, o povo encontra-se distante dos processos decisórios, transformando-se num elemento passivo ou meramente simbólico. Esta análise sugere que as estruturas democráticas atuais podem ter sido cooptadas por elites políticas, económicas ou burocráticas, criando um fosso entre os cidadãos e o poder que supostamente os representa. A citação questiona a substância real da democracia quando os mecanismos de participação popular se tornam frágeis ou ilusórios. Saramago aponta para uma desconexão entre a teoria democrática e a sua implementação, onde o povo, embora nominalmente soberano, não exerce efetivamente o seu poder. Esta reflexão convida a repensar como a democracia pode ser revitalizada para incluir verdadeiramente a voz e a vontade coletiva dos cidadãos, evitando que se torne um sistema vazio de significado político real.

Origem Histórica

José Saramago (1922-2010), Prémio Nobel de Literatura em 1998, desenvolveu ao longo da sua obra uma profunda crítica social e política, influenciada pelo seu contexto histórico. Viveu sob a ditadura do Estado Novo em Portugal (até 1974) e testemunhou a transição para a democracia, o que moldou a sua visão cética sobre os sistemas políticos. A citação reflete a sua desconfiança em relação às instituições democráticas formais, que ele via como frequentemente distantes das necessidades reais das pessoas. Esta perspetiva foi consolidada no final do século XX e início do XXI, período marcado pela globalização e pelo crescente desencanto com a política tradicional.

Relevância Atual

A frase mantém uma relevância acentuada no contexto atual, caracterizado por fenómenos como a abstenção eleitoral, a desconfiança nas instituições políticas, o populismo e a perceção de que as decisões importantes são tomadas por tecnocratas ou interesses económicos longe do escrutínio público. Em tempos de crise democrática e questionamento dos sistemas representativos, a reflexão de Saramago serve como um alerta para os riscos da alienação política e da erosão da participação cívica. Ela ressoa com movimentos que exigem democracias mais diretas, transparentes e inclusivas.

Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a discursos ou intervenções públicas de José Saramago, embora não esteja identificada num livro específico. Reflete temas centrais da sua obra, como em 'Ensaio sobre a Lucidez' (2004), onde explora uma crise democrática através de uma eleição com votos em branco, questionando a legitimidade do sistema.

Citação Original: Estamos numa situação em que uma democracia que, segundo a definição antiga, é o governo do povo, para o povo e pelo povo, nessa democracia precisamente está ausente o povo.

Exemplos de Uso

  • Em debates sobre a reforma política, citar Saramago para criticar a falta de participação popular nas decisões governamentais.
  • Em análises de abstenção eleitoral, usar a frase para explicar o desencanto dos cidadãos com a democracia representativa.
  • Em discussões sobre democracia digital, referir Saramago para questionar se as novas tecnologias realmente incluem o povo ou apenas simulam participação.

Variações e Sinônimos

  • A democracia é o governo do povo, mas sem o povo.
  • Uma democracia vazia de demos.
  • O povo ausente na casa do povo.
  • Democracia: um fantasma do ideal original.

Curiosidades

José Saramago era conhecido por ser um crítico ferrenho da Igreja Católica e do capitalismo, o que o levou a exilar-se em Lanzarote, Espanha, nos anos 1990, após a polémica com o governo português sobre o seu livro 'O Evangelho segundo Jesus Cristo'.

Perguntas Frequentes

O que significa 'ausente o povo' na citação de Saramago?
Significa que, apesar da democracia se definir como governo do povo, na prática, os cidadãos têm pouca influência real nas decisões políticas, estando distantes do poder.
Por que é que Saramago critica a democracia?
Saramago não critica o ideal democrático, mas sim a sua implementação prática, que ele via como falha em incluir verdadeiramente o povo, tornando-se um sistema controlado por elites.
Esta citação aplica-se à democracia portuguesa atual?
A citação é uma reflexão universal sobre democracias representativas, podendo aplicar-se a Portugal em contextos de abstenção eleitoral ou perceção de distância entre políticos e cidadãos.
Que obras de Saramago abordam temas políticos semelhantes?
Obras como 'Ensaio sobre a Lucidez', 'A Caverna' e 'Ensaio sobre a Cegueira' exploram críticas sociais e políticas, questionando sistemas de poder e a condição humana.

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