Frases de Miguel Esteves Cardoso - Como é que eu faço por estar

Frases de Miguel Esteves Cardoso - Como é que eu faço por estar...


Frases de Miguel Esteves Cardoso


Como é que eu faço por estar bem disposto, encontrando-me na verdade tão triste e miserável como vocês todos? Há várias técnicas. A mais importante é a técnica do «proporcionamento». Consiste em atribuir a um dado problema pessoal a proporção que tem no mundo. Há tanta gente a sofrer de verdade, a morrer, de fome, de doenças, de terramotos, que o nosso sofrimento, quando é publicamente exibido, é pequenino e obsceno.

Miguel Esteves Cardoso

Esta citação revela uma estratégia paradoxal de bem-estar: encontrar leveza através da consciência do sofrimento alheio. Propõe uma perspetiva que redimensiona as nossas dores no vasto panorama da existência humana.

Significado e Contexto

A citação de Miguel Esteves Cardoso apresenta a 'técnica do proporcionamento' como um método consciente para lidar com estados emocionais negativos. Em vez de negar ou reprimir a tristeza, o autor sugere ativamente contextualizá-la: comparar os problemas pessoais com o sofrimento objetivo e massivo que existe no mundo (fome, doenças, catástrofes). Esta comparação não pretende minimizar a dor individual, mas sim alterar a sua perceção, tornando-a menos absoluta e central. O resultado é um distanciamento que pode gerar alívio e até uma certa leveza, evitando o que o autor considera a 'obscenidade' da exibição pública de um sofrimento desproporcionado. Trata-se, portanto, de um exercício de humildade e de colocação em perspetiva, que transforma a consciência do sofrimento alheio numa ferramenta para o próprio equilíbrio emocional.

Origem Histórica

Miguel Esteves Cardoso (n. 1955) é um dos mais importantes cronistas e humoristas portugueses contemporâneos. A citação reflete o seu estilo característico, que mistura observação social aguda, ironia fina e uma busca por sabedoria prática no quotidiano. A sua obra, desenvolvida sobretudo a partir dos anos 80 em jornais como 'O Independente' e 'Público', muitas vezes aborda temas como a felicidade, o absurdo da vida moderna e as estratégias para navegar as suas contradições. Esta ideia do 'proporcionamento' surge neste contexto, como uma resposta pessoal e intelectual ao mal-estar individual numa era de hiperexposição e de consumo emocional.

Relevância Atual

Num mundo hiperconectado onde as redes sociais frequentemente incentivam a partilha e a dramatização de estados emocionais (o 'oversharing'), a técnica do proporcionamento ganha uma relevância crucial. Oferece um antídoto contra a tendência para amplificar e centralizar as próprias dificuldades. Além disso, numa sociedade com níveis elevados de ansiedade e stress, a ideia de contextualizar os problemas pode ser uma ferramenta valiosa de saúde mental. A frase também toca na questão da empatia: ao lembrarmo-nos do sofrimento alheio, cultivamos uma visão menos egocêntrica, o que é particularmente relevante face a crises globais como pandemias, guerras ou alterações climáticas.

Fonte Original: A citação é provavelmente de uma das suas crónicas ou livros de ensaios, como 'A Causa das Coisas' ou 'O Céu que nos Cobre', onde Esteves Cardoso explora frequentemente temas de filosofia do quotidiano. No entanto, a origem exata (título do livro/crónica, data) não é especificada na informação fornecida.

Citação Original: Como é que eu faço por estar bem disposto, encontrando-me na verdade tão triste e miserável como vocês todos? Há várias técnicas. A mais importante é a técnica do «proporcionamento». Consiste em atribuir a um dado problema pessoal a proporção que tem no mundo. Há tanta gente a sofrer de verdade, a morrer, de fome, de doenças, de terramotos, que o nosso sofrimento, quando é publicamente exibido, é pequenino e obsceno.

Exemplos de Uso

  • Um gestor sobrecarregado usa o proporcionamento ao lembrar-se que, apesar do stress, tem um emprego estável, enquanto milhões enfrentam o desemprego.
  • Alguém que sofre uma desilusão amorosa pode colocar a sua dor em perspetiva, pensando nas pessoas que vivem em guerra ou em campos de refugiados.
  • Um estudante ansioso antes de um exame aplica a técnica, recordando a si mesmo que é um problema circunscrito, comparado com desafios de saúde ou de sobrevivência que outros enfrentam.

Variações e Sinônimos

  • Colocar as coisas em perspetiva.
  • Há males que vêm por bem. (Ditado popular com ideia de relativização)
  • Ver o copo meio cheio em vez de meio vazio.
  • Não fazer uma tempestade num copo de água.
  • Há sempre alguém em pior situação.

Curiosidades

Miguel Esteves Cardoso é também conhecido por ter sido um dos primeiros tradutores para português dos livros de 'Mafalda', a famosa personagem de banda desenhada argentina que questiona ironicamente o mundo adulto, uma influência que talvez se reflicta no seu olhar crítico e humorístico sobre a sociedade.

Perguntas Frequentes

A técnica do proporcionamento é uma forma de negar o sofrimento?
Não. Não se trata de negar ou reprimir a dor, mas de a contextualizar. Reconhece-se o sofrimento, mas altera-se o seu peso relativo na perceção individual, comparando-o com realidades mais graves.
Esta técnica pode ajudar em casos de depressão ou ansiedade clínica?
Pode ser uma ferramenta de gestão do pensamento, mas não substitui tratamento profissional. Em casos clínicos, é crucial procurar ajuda de psicólogos ou psiquiatras.
O que significa 'obsceno' na citação?
Neste contexto, 'obsceno' refere-se a algo desproporcionado, indecente ou chocante pela sua falta de medida. O autor considera obscena a exibição pública de um sofrimento pessoal quando este é amplificado sem a devida perspetiva face a sofrimentos objetivos maiores.
Esta ideia é egoísta, por usar o sofrimento alheio para o próprio conforto?
A interpretação pode variar. Pode ser vista como um exercício de humildade e realinhamento da perceção, que pode inclusive fomentar maior empatia e ação solidária, ao tornar-nos mais conscientes das dificuldades dos outros.

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