Frases de Mia Couto - Quando me viam, parado e recat...

Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
Mia Couto
Significado e Contexto
A citação descreve uma aparente contradição: alguém parado e recatado que, longe de estar inativo ou pasmado, está profundamente ocupado num trabalho interior. A expressão 'tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude' sugere um processo artesanal e cuidadoso de construção da paz interior, comparável ao trabalho minucioso de um tecelão. O autor transforma-se num 'afinador de silêncios', uma metáfora poderosa que equipara o silêncio a um instrumento musical que precisa de ser afinado para produzir harmonia, indicando que a quietude não é ausência, mas uma presença qualificada e trabalhada. Esta visão desafia a perceção comum de que estar parado significa improdutividade. Pelo contrário, propõe que existe uma produtividade subtil e essencial na contemplação e no cultivo do silêncio interior. O 'invisível recanto' representa um espaço mental ou espiritual onde este trabalho ocorre, longe da observação externa. A frase celebra o valor da introspeção como um ato criativo e necessário para o equilíbrio pessoal.
Origem Histórica
Mia Couto é um escritor moçambicano contemporâneo, nascido em 1955, conhecido por uma prosa poética que funde realismo mágico com as tradições e a realidade social de Moçambique. A sua obra reflete frequentemente temas de identidade, memória e a relação entre o humano e a natureza. Esta citação encapsula uma visão comum na sua escrita: a valorização do mundo interior, do silêncio e das perceções subtis, muitas vezes em contraste com o ruído e a violência do contexto histórico pós-colonial moçambicano. A metáfora do 'afinador' pode também ecoar a importância da oralidade e da musicalidade nas culturas africanas.
Relevância Atual
Num mundo caracterizado pelo excesso de estímulos, ruído digital e pressão pela produtividade constante, esta frase ganha uma relevância extraordinária. Lembra-nos da necessidade de cultivar espaços de silêncio e introspeção como antídotos para o stress e a superficialidade. A ideia de 'afinar silêncios' ressoa com práticas modernas como a mindfulness, a meditação e a busca por um equilíbrio entre ação e contemplação. É um convite a reavaliar o que consideramos trabalho valioso, reconhecendo que a quietude ativa é fundamental para a saúde mental, a criatividade e a clareza de pensamento.
Fonte Original: A citação é atribuída a Mia Couto, mas a fonte exata (livro, conto ou discurso específico) não é universalmente identificada em fontes públicas amplamente disponíveis. É frequentemente citada em antologias e sites de citações como uma das suas frases mais poéticas e representativas.
Citação Original: Quando me viam, parado e recatado, no meu invisível recanto, eu não estava pasmado. Estava desempenhado, de alma e corpo ocupados: tecia os delicados fios com que se fabrica a quietude. Eu era um afinador de silêncios.
Exemplos de Uso
- Num retiro de mindfulness, o facilitador explicou que, como um 'afinador de silêncios', cada participante estava a aprender a sintonizar a sua mente com a quietude interior.
- O artista, ao descrever o seu processo criativo, disse que passa horas em aparente inatividade, mas na verdade está a 'tecer os fios da quietude' necessários para a inspiração.
- Num artigo sobre gestão do stress, o psicólogo recomendou momentos diários para ser um 'afinador de silêncios', desconectando-se do ruído digital para restaurar o equilíbrio emocional.
Variações e Sinônimos
- O silêncio é um som que se ouve com a alma.
- A quietude é a linguagem de Deus.
- Na calma, encontra-se a força.
- O ruído exterior não abafa a voz interior.
- Parar não é perder tempo, é ganhar perspetiva.
Curiosidades
Mia Couto, além de escritor, é biólogo de formação. Esta dupla formação – científica e literária – pode influenciar a sua capacidade de observar o mundo com precisão (como um cientista) e descrevê-lo com metáforas profundas (como um poeta), tal como se observa na minúcia da metáfora do 'afinador'.