Frases de François de La Rochefoucauld - Há pessoas tão cheias de si ...

Há pessoas tão cheias de si mesmas que, quando se apaixonam, arranjam maneira de se ocupar da sua paixão em vez da pessoa que amam.
François de La Rochefoucauld
Significado e Contexto
Esta máxima de La Rochefoucauld critica uma forma particular de autoengano nas relações amorosas. O autor sugere que algumas pessoas, por estarem excessivamente centradas em si mesmas, transformam a experiência de apaixonar-se num exercício de contemplação da própria emoção, em vez de se dedicarem verdadeiramente ao outro. Isto cria uma dinâmica onde o objeto do amor torna-se secundário face ao prazer narcísico de sentir-se apaixonado. Do ponto de vista educativo, esta reflexão convida a uma introspeção sobre as motivações por trás dos nossos afetos. Questiona se amamos alguém pela sua singularidade ou pelo papel que essa pessoa desempenha na nossa narrativa pessoal. La Rochefoucauld, conhecido pelo seu cinismo psicológico, expõe assim uma verdade incómoda sobre a natureza humana: muitas vezes, o que chamamos de amor pode ser uma forma sofisticada de egoísmo.
Origem Histórica
François de La Rochefoucauld (1613-1680) foi um escritor e moralista francês do século XVII, pertencente à alta nobreza. Viveu durante o período do classicismo francês e participou ativamente nas intrigas da Fronda, uma série de revoltas contra a monarquia. As suas 'Máximas' (publicadas primeiramente em 1665) são a sua obra mais conhecida, caracterizadas por um pessimismo agudo sobre a natureza humana, influenciado pelo jansenismo e pelas suas próprias experiências políticas desiludidas.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância extraordinária na era das redes sociais e do culto do 'eu'. Hoje, observa-se frequentemente a 'performance' do amor (através de publicações excessivas, gestos calculados para aparência) em detrimento da intimidade genuína. A citação ajuda a analisar fenómenos contemporâneos como o narcisismo relacional, onde a paixão serve para alimentar a autoimagem. Num contexto terapêutico ou de desenvolvimento pessoal, serve como alerta contra a autorreferencialidade nos relacionamentos.
Fonte Original: Obra: 'Réflexions ou sentences et maximes morales' (Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais), frequentemente referida apenas como 'Máximas'. A numeração exata varia entre edições, mas esta ideia percorre várias das suas reflexões sobre o amor-próprio.
Citação Original: Il y a des gens si remplis d'eux-mêmes que, quand ils sont amoureux, ils trouvent moyen d'être occupés de leur passion sans l'être de la personne qu'ils aiment.
Exemplos de Uso
- Nas redes sociais, alguns partilham obsessivamente fotos do parceiro menos por afeto e mais para projetar uma imagem de pessoa apaixonada, ocupando-se da sua própria narrativa romântica.
- Em terapia de casal, identifica-se por vezes um parceiro que fala incessantemente sobre 'o que sente' pela relação, mas demonstra pouca curiosidade ou atenção pelos sentimentos reais do outro.
- Na cultura do 'self-care' extremo, há quem aborde o amor como mais uma ferramenta de crescimento pessoal, focando-se no que a paixão lhe traz, em vez de se investir na reciprocidade.
Variações e Sinônimos
- Amar a ideia de amar, em vez de amar a pessoa.
- O amor-próprio disfarçado de amor ao outro.
- O egoísmo vestido de paixão.
- Ditado popular: 'Quem ama o espelho, ama o seu reflexo.'
Curiosidades
La Rochefoucauld escrevia as suas máximas em pequenos pedaços de papel, que depois eram lidos e discutidos nos salões literários de Paris, como o da Marquise de Sablé. Esta prática colaborativa influenciou o estilo conciso e afiado das suas frases.


