Frases de François de La Rochefoucauld - O mal que fazemos não nos sus...

O mal que fazemos não nos suscita tantas perseguições e ódio como as nossas boas qualidades.
François de La Rochefoucauld
Significado e Contexto
Esta máxima, extraída das 'Máximas' de La Rochefoucauld, explora um paradoxo psicológico profundo. O autor sugere que os nossos atos negativos, embora condenáveis, muitas vezes são tolerados ou até esperados, pois confirmam uma visão cínica ou realista da humanidade. Em contraste, as boas qualidades – como a integridade, o talento excecional ou a generosidade genuína – podem funcionar como um espelho que reflete as falhas dos outros, despertando sentimentos de inferioridade, inveja e ressentimento. A excelência alheia desafia o conforto da mediocridade e pode ser percecionada como uma reprimenda silenciosa, levando a reações de hostilidade mais intensas do que as provocadas por erros ou maldades comuns. Num tom educativo, podemos entender esta ideia como um alerta sobre a complexidade das relações sociais. La Rochefoucauld, com o seu estilo afiado, não está a promover o cinismo, mas a descrever um mecanismo humano observável. A frase convida à autorreflexão: será que, por vezes, nos sentimos incomodados mais pela bondade ou competência de alguém do que pelas suas falhas? E como gerimos as nossas próprias qualidades para minimizar este efeito? É uma lição sobre a necessidade de humildade e sobre como a virtude, para ser bem recebida, pode exigir tanta sabedoria quanto a sua prática.
Origem Histórica
François de La Rochefoucauld (1613-1680) foi um nobre francês, militar e escritor, conhecido pelas suas 'Máximas' (publicadas pela primeira vez em 1665). Viveu durante o reinado de Luís XIV, numa corte marcada por intrigas, vaidades e uma rígida hierarquia social. As suas observações nasceram da experiência direta neste ambiente competitivo, onde a aparência e a reputação eram cruciais. As 'Máximas' refletem o espírito do classicismo francês e do jansenismo (uma corrente religiosa que enfatizava a corrupção da natureza humana), oferecendo uma análise desencantada, mas perspicaz, dos motivos egoístas por detrás das ações aparentemente virtuosas.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância impressionante nos dias de hoje. Nas redes sociais, por exemplo, o sucesso ou a felicidade alheia pode gerar mais 'ódio' (haters) e críticas do que os erros públicos. No local de trabalho, um colega excecionalmente competente pode enfrentar mais resistência e inveja do que um colega medíocre mas inofensivo. A máxima ajuda a explicar fenómenos como o 'tall poppy syndrome' (a tendência para criticar quem se destaca) e a polarização política, onde os argumentos bem-intencionados do 'outro lado' são por vezes recebidos com mais hostilidade do que os seus erros óbvios. É um lembrete atemporal de que a comunicação das nossas qualidades requer sensibilidade ao contexto social.
Fonte Original: Obra: 'Réflexions ou sentences et maximes morales' (Reflexões ou Sentenças e Máximas Morais), frequentemente abreviada para 'Máximas'. A citação é a máxima nº 29 na edição de 1678.
Citação Original: "Le mal que nous faisons ne nous attire pas tant de persécution et de haine que nos bonnes qualités."
Exemplos de Uso
- Um funcionário exemplar que é alvo de fofocas e isolamento por parte de colegas menos dedicados, enquanto um colega que comete erros menores é tolerado.
- Um influencer nas redes sociais que partilha conteúdos positivos e inspiradores recebe mais comentários negativos e invejosos do que outro que partilha falhas ou escândalos.
- Num debate político, um argumento bem fundamentado e ético de um oponente pode ser recebido com mais agressividade e desdém do que uma declaração claramente falsa ou prejudicial do mesmo oponente.
Variações e Sinônimos
- Ninguém é profeta na sua terra.
- A inveja é o imposto que o sucesso paga.
- Quem com ferro fere, com ferro será ferido, mas quem com luz brilha, com sombras será combatido.
- As boas ações são mais punidas que as más.
Curiosidades
La Rochefoucauld escreveu as suas máximas inicialmente para um círculo restrito de amigos. A primeira edição foi publicada anonimamente e pirateada, o que o levou a publicar edições autorizadas e revistas, mostrando o seu cuidado com a precisão das suas observações.


