Frases de Clarice Lispector - A realidade não me surpreende

Frases de Clarice Lispector - A realidade não me surpreende...


Frases de Clarice Lispector


A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma tal fome de «coisa acontecer mesmo» que mordo num grito a realidade com os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego a viver da imaginação.

Clarice Lispector

Esta citação de Clarice Lispector captura a tensão humana entre o desejo visceral pela realidade concreta e o refúgio reconfortante da imaginação. Revela como alternamos entre devorar a existência com intensidade e recuar para os domínios interiores da fantasia.

Significado e Contexto

Esta citação explora a relação paradoxal do ser humano com a realidade. Inicialmente, o sujeito afirma que a realidade não o surpreende, sugerindo uma atitude de desencanto ou habituação. Contudo, essa afirmação é imediatamente negada, revelando um desejo intenso e quase animal por experiências autênticas - uma 'fome de coisa acontecer mesmo'. A metáfora de 'morder a realidade com os dentes dilacerantes' transmite uma necessidade visceral e agressiva de se apropriar do real, de vivê-lo com uma intensidade que quase o destrói ao consumi-lo. Após esse momento de devoração existencial, segue-se um suspiro de saciedade ou talvez de cansaço, e o retorno ao conforto da imaginação, onde se pode viver sem a crueza da 'realidade real'. Este ciclo ilustra a oscilação humana entre o engajamento com o mundo exterior e o recuo para o espaço interior da criação mental.

Origem Histórica

Clarice Lispector (1920-1977) foi uma escritora brasileira de origem ucraniana, figura central da literatura modernista brasileira. A citação reflete temas característicos da sua obra, marcada por um profundo mergulho na subjectividade, na introspecção e na exploração dos estados de consciência. O seu trabalho, desenvolvido principalmente nas décadas de 1940 a 1970, dialoga com correntes filosóficas como o existencialismo e fenomenologia, focando-se na experiência interior e nas questões existenciais do indivíduo. O contexto histórico do Brasil do século XX, com suas transformações sociais e políticas, serve muitas vezes como pano de fundo para estas reflexões íntimas e universais.

Relevância Atual

Esta frase mantém uma relevância notável na contemporaneidade, onde muitas pessoas experienciam uma dicotomia semelhante. Na era digital, somos constantemente bombardeados com estímulos e 'realidades' mediadas pelos ecrãs, o que pode gerar tanto uma saturação (a realidade que não surpreende) como uma ânsia por experiências autênticas e não filtradas (a fome de 'coisa acontecer mesmo'). A oscilação entre o envolvimento com o mundo exterior - muitas vezes esmagador - e o refúgio em mundos imaginários (seja através da literatura, jogos, séries ou simples devaneio) é uma experiência comum no século XXI. A citação oferece uma linguagem poética para descrever este conflito psicológico moderno.

Fonte Original: A citação é atribuída a Clarice Lispector, mas a fonte específica (livro, conto ou crónica) não é identificada com certeza nesta formulação exata. É consistente com o estilo e temas da sua obra, presente em livros como 'A Paixão Segundo G.H.', 'A Hora da Estrela' ou na sua produção cronística.

Citação Original: A realidade não me surpreende. Mas não é verdade; de repente tenho uma tal fome de «coisa acontecer mesmo» que mordo num grito a realidade com os dentes dilacerantes. E depois suspiro sobre a presa cuja carne comi. E por muito tempo, de novo, prescindo da realidade real e me aconchego a viver da imaginação.

Exemplos de Uso

  • Um viajante que, após meses de planeamento meticuloso, se lança numa aventura espontânea para sentir a vida 'acontecer mesmo', regressando depois ao conforto das suas memórias e sonhos.
  • Um artista que mergulha intensamente na observação do mundo para a sua criação, absorvendo experiências de forma quase violenta, para depois se isolar no atelier a transformá-las em obra.
  • Uma pessoa que, após um dia socialmente intenso e repleto de interações reais, suspira de alívio e se recolhe ao seu mundo interior, seja lendo um livro ou simplesmente a sonhar acordada.

Variações e Sinônimos

  • "A vida é o que acontece enquanto estamos ocupados a fazer outros planos." (John Lennon)
  • "Às vezes é preciso mergulhar na realidade para depois poder voar na imaginação."
  • "A fronteira entre a realidade e a ficção é mais ténue do que pensamos."
  • "Viver intensamente para depois sonhar em paz."

Curiosidades

Clarice Lispector começou a escrever o seu primeiro romance, 'Perto do Coração Selvagem', aos 19 anos, enquanto estudava Direito. O livro, publicado quando tinha 23 anos, foi imediatamente aclamado pela crítica e estabeleceu-a como uma voz única na literatura brasileira.

Perguntas Frequentes

O que significa 'fome de coisa acontecer mesmo' na citação?
Significa um desejo profundo e visceral por experiências autênticas, reais e não mediadas - uma necessidade existencial de sentir a vida de forma intensa e genuína, para além da rotina ou da superficialidade.
Por que é que a personagem depois 'prescinde da realidade real'?
Porque o envolvimento intenso com a realidade pode ser esgotante ou avassalador. Após 'devorar' a experiência, há uma necessidade psicológica de recuar para o espaço mais controlável e confortável da imaginação, onde se pode processar, sonhar ou simplesmente descansar.
Esta citação reflete o estilo literário de Clarice Lispector?
Sim, é representativa. Lispector é conhecida pela sua prosa introspetiva, focada nos fluxos de consciência, nas emoções profundas e na exploração filosófica da existência, frequentemente usando metáforas vívidas e linguagem poética.
Como se relaciona esta ideia com o mundo contemporâneo?
Relaciona-se profundamente com a experiência moderna de alternância entre o excesso de estímulos reais (ou mediados digitalmente) e a necessidade de escapismo para mundos imaginários, seja através do entretenimento, da arte ou da simples contemplação interior.

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