Frases de Clarice Lispector - Eu que dei para mentir. E com ...

Eu que dei para mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.
Clarice Lispector
Significado e Contexto
Esta citação de Clarice Lispector apresenta um complexo jogo dialético entre mentira e verdade. A autora sugere que a mentira, quando consciente e intencional, pode transformar-se num ato de revelação pessoal. Ao afirmar 'Eu que dei para mentir', assume uma postura ativa de engano, mas imediatamente subverte essa afirmação ao declarar que, ao dizê-lo, está a expressar uma verdade. Este paradoxo central explora como a consciência do ato de mentir pode abrir espaço para verdades interiores 'duras' - aquelas que normalmente evitamos confrontar. A frase desenvolve-se numa espiral reflexiva onde o sujeito reconhece que 'mentir já não era sem tempo', sugerindo uma necessidade quase existencial de recorrer ao engano. No entanto, este engano é direcionado 'a quem devo enganar', implicando uma relação específica e talvez necessária com o outro. O momento crucial ocorre quando, sabendo que está a enganar, o narrador encontra acesso a 'verdades duras' no seu interior. Isto revela a perspetiva lispectoriana de que a autenticidade pode emergir através de camadas de ficção que construímos sobre nós mesmos.
Origem Histórica
Clarice Lispector (1920-1977) escreveu durante o século XX no Brasil, período marcado por profundas transformações sociais e pela emergência de novas correntes literárias. A sua obra situa-se na interseção entre modernismo e existencialismo, influenciada por autores como Kafka e Virginia Woolf. Esta citação reflete o seu interesse constante pela introspeção psicológica e pela exploração dos limites da linguagem para expressar experiências interiores complexas. O contexto pós-guerra e as questões identitárias brasileiras informam indirectamente a sua preocupação com autenticidade e representação.
Relevância Atual
Esta citação mantém relevância contemporânea num mundo onde as fronteiras entre verdade e ficção se tornaram cada vez mais fluidas, especialmente nas redes sociais e na política. A ideia de que a mentira consciente pode revelar verdades profundas ressoa com discussões modernas sobre autenticidade performativa, construção identitária e a natureza da verdade pós-moderna. Num contexto educativo, oferece ferramentas para discutir ética, autoconhecimento e as complexidades da comunicação humana.
Fonte Original: A citação é atribuída a Clarice Lispector, provavelmente proveniente dos seus romances ou crónicas, embora a origem exata não seja especificada na consulta. A autora desenvolveu este tema em várias obras, incluindo 'A Paixão Segundo G.H.' e 'Água Viva'.
Citação Original: Eu que dei para mentir. E com isso estou dizendo uma verdade. Mas mentir já não era sem tempo. Engano a quem devo enganar, e, como sei que estou enganando, digo por dentro verdades duras.
Exemplos de Uso
- Na terapia, um paciente pode criar uma 'mentira' sobre si mesmo que, ao ser examinada, revela verdades profundas sobre seus medos e desejos.
- Um artista que assume um personagem fictício nas redes sociais pode, através dessa performance, expressar aspectos autênticos da sua personalidade.
- Num contexto político, um discurso deliberadamente enganoso pode, paradoxalmente, revelar verdades sobre as intenções ou valores do orador.
Variações e Sinônimos
- A mentira que conta uma verdade
- O engano como espelho da alma
- Fingir para ser autêntico
- A máscara que revela o rosto
Curiosidades
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e chegou ao Brasil com apenas dois anos, facto que alguns críticos relacionam com a sua constante exploração de temas de identidade e pertença. A sua escrita é conhecida por desafiar as convenções gramaticais para capturar estados de consciência.


