Frases de Platão - É a esta força que mantém s...

É a esta força que mantém sempre a opinião justa e legítima sobre o que é necessário temer e não temer, que chamo e defino coragem.
Platão
Significado e Contexto
Na citação de Platão, a coragem é apresentada como uma força racional e moral, não como mera impulsividade ou ausência de medo. O filósofo enfatiza que a verdadeira coragem reside na capacidade de formar uma 'opinião justa e legítima' sobre o que realmente merece ser temido e o que não merece. Isto implica um processo de discernimento baseado na razão e na virtude, onde o indivíduo avalia os perigos de forma objetiva, evitando tanto a covardia como a temeridade. A coragem, assim, está intrinsecamente ligada à sabedoria prática (phronesis), sendo uma das quatro virtudes cardinais na filosofia platónica, essencial para uma vida ética e equilibrada. Esta visão contrasta com concepções populares de coragem como simples ousadia ou bravura. Para Platão, a coragem exige autoconhecimento e reflexão, permitindo que se enfrente o medo quando necessário, mas também que se evitem riscos desnecessários. É uma virtude que modera as emoções, especialmente o medo, através da razão, contribuindo para a harmonia da alma e da sociedade. No contexto da República, onde esta ideia é desenvolvida, a coragem é atribuída aos guardiões do Estado, que devem proteger a cidade com base num entendimento correcto dos perigos, não por instinto cego.
Origem Histórica
Platão (428/427–348/347 a.C.) foi um filósofo grego, discípulo de Sócrates e mestre de Aristóteles, cujo pensamento moldou a tradição filosófica ocidental. A citação reflete a sua teoria das virtudes, desenvolvida principalmente na obra 'A República' (Politeia), escrita por volta de 380 a.C. Nesta obra, Platão explora a justiça, a organização ideal da cidade-estado (pólis) e a natureza da alma humana, dividindo-a em três partes: racional, irascível e apetitiva. A coragem está associada à parte irascível da alma, que deve ser governada pela razão para alcançar a virtude. O contexto histórico é o da Atenas clássica, marcada por debates sobre ética, política e educação, com Platão respondendo às crises da democracia ateniense e à condenação de Sócrates.
Relevância Atual
Esta frase mantém relevância hoje porque redefine a coragem como uma competência crítica e emocional, aplicável em contextos como liderança, saúde mental e tomada de decisões. Num mundo de incertezas, desde pandemias a crises climáticas, a capacidade de discernir entre medos reais e imaginários é crucial para o bem-estar individual e colectivo. A visão de Platão ressoa em áreas como a psicologia, onde se estuda a regulação emocional, e na educação, que valoriza o pensamento crítico sobre riscos. Além disso, em debates públicos sobre coragem cívica ou resiliência, a ênfase na 'opinião justa' lembra-nos que a verdadeira bravura requer reflexão ética, não apenas ação impulsiva.
Fonte Original: A República (Politeia), de Platão, provavelmente no Livro IV, onde discute as virtudes da cidade e da alma.
Citação Original: Εἰς ταύτην τὴν δύναμιν τὴν ἀεὶ σῴζουσαν τὴν ὀρθὴν δόξαν περὶ τῶν δεινῶν καὶ μὴ δεινῶν, ἀνδρείαν καλῶ τε καὶ ὁρίζομαι.
Exemplos de Uso
- Um líder empresarial que enfrenta uma crise económica com estratégia calculada, evitando pânico mas reconhecendo riscos reais, exemplifica a coragem platónica.
- Na saúde mental, uma pessoa que lida com a ansiedade ao distinguir preocupações produtivas de medos irracionais pratica esta forma de coragem.
- Um activista social que defende uma causa impopular com base em princípios éticos, apesar de críticas, demonstra a 'opinião justa' sobre o que temer.
Variações e Sinônimos
- A coragem é a sabedoria de saber quando temer.
- Mais vale um covarde vivo que um corajoso morto por imprudência.
- A verdadeira bravura está no autocontrolo.
- Coragem não é ausência de medo, mas o julgamento de que algo é mais importante que o medo.
Curiosidades
Platão usava frequentemente diálogos para apresentar suas ideias, e esta definição de coragem pode ter sido influenciada por Sócrates, que enfrentou a morte com serenidade, exemplificando a 'opinião justa' sobre o temível.


