Frases de José Saramago - Quando a esquerda chega ao pod...

Quando a esquerda chega ao poder, não usa as razões pelas quais chegou. A esquerda deixa de o ser muitas vezes quando chega ao poder e isso é dramático.
José Saramago
Significado e Contexto
Esta citação de José Saramago expressa uma crítica aguda à trajetória de movimentos e partidos de esquerda quando alcançam posições de governo. O autor sugere que, frequentemente, estes abandonam os princípios fundamentais e os argumentos que os levaram ao poder, comprometendo-se com práticas que contradizem a sua identidade original. Esta transformação não é vista como uma evolução natural, mas como algo 'dramático', implicando uma perda de autenticidade e uma traição aos ideais que mobilizaram os seus apoiantes. Num sentido mais amplo, Saramago parece questionar a própria natureza do poder institucional e a sua capacidade de corromper ou diluir projetos transformadores. A frase reflete um ceticismo em relação à possibilidade de mudanças radicais através das estruturas do Estado, um tema recorrente no pensamento do autor. É uma reflexão sobre o fosso entre a teoria revolucionária ou reformista e a prática governativa, onde as exigências da gestão e do realpolitik podem sobrepor-se aos valores fundadores.
Origem Histórica
José Saramago (1922-2010), Prémio Nobel de Literatura em 1998, era um intelectual profundamente comprometido com causas de esquerda e humanistas. A sua visão política foi moldada pela experiência do Estado Novo em Portugal, pela Revolução dos Cravos de 1974 e pelas subsequentes desilusões com os caminhos tomados por partidos e governos. Esta citação provavelmente emerge do seu olhar crítico sobre a política portuguesa e internacional das décadas finais do século XX e iniciais do século XXI, período em que partidos socialistas e social-democratas, por vezes, adotaram políticas neoliberais ou moderaram significativamente os seus programas.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância pungente no contexto político contemporâneo. Continua a servir como um lembrete crítico para movimentos progressistas e partidos de esquerda em todo o mundo, especialmente quando estes alcançam o governo e enfrentam o dilema entre manter promessas radicais e gerir realidades económicas e sociais complexas. A discussão sobre 'traição' ou 'moderação' de ideais, a ascensão de novos movimentos populistas de esquerda e direita, e o debate sobre a eficácia das instituições democráticas para realizar mudanças profundas fazem desta reflexão um ponto de partida crucial para analisar a política atual.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a entrevistas ou intervenções públicas de José Saramago, sendo uma das suas reflexões políticas mais citadas. Não está identificada com um livro específico, mas ecoa temas centrais da sua obra ensaística e do seu ativismo público.
Citação Original: Quando a esquerda chega ao poder, não usa as razões pelas quais chegou. A esquerda deixa de o ser muitas vezes quando chega ao poder e isso é dramático.
Exemplos de Uso
- Analisando a governação de certos partidos socialistas na Europa, que implementaram políticas de austeridade, um comentarista pode citar Saramago para ilustrar a 'dramática' distância entre o discurso eleitoral e a ação governativa.
- Num debate sobre novos movimentos políticos, alguém pode usar a frase para alertar sobre os riscos de cooptação e perda de identidade ideológica ao integrar instituições tradicionais.
- Num artigo de opinião sobre a crise de representatividade, o autor pode invocar Saramago para criticar a perceção de que os partidos 'esquerdam' os seus princípios fundamentais uma vez no governo.
Variações e Sinônimos
- O poder corrompe, o poder absoluto corrompe absolutamente. (Lord Acton)
- Quem entra no sistema, acaba por ser engolido pelo sistema.
- A revolução devora os seus filhos.
- Da oposição ao governo, perde-se a pureza dos ideais.
Curiosidades
José Saramago foi membro do Partido Comunista Português desde 1969 e manteve-se crítico feroz do capitalismo e das injustiças sociais até ao fim da vida, o que torna esta sua reflexão sobre a esquerda no poder particularmente introspetiva e não proveniente de um observador externo.


