Frases de Jean-Paul Sartre - Não sabemos o que queremos e,...

Não sabemos o que queremos e, no entanto, somos responsáveis por quem somos, esse é o fato.
Jean-Paul Sartre
Significado e Contexto
Esta afirmação sintetiza um dos pilares do existencialismo sartriano. A primeira parte – 'Não sabemos o que queremos' – refere-se à ausência de uma essência ou destino pré-determinado para o ser humano. Nascemos sem um manual de instruções ou um propósito intrínseco, o que gera uma angústia fundamental perante o vazio das possibilidades. A segunda parte – 'somos responsáveis por quem somos' – é a contrapartida dessa liberdade radical. Apesar da incerteza e da falta de um guia claro, não podemos delegar a autoria das nossas ações. Somos os únicos arquitetos do nosso carácter e do nosso percurso, e essa construção é um ato de responsabilidade contínua. O 'fato' a que Sartre alude é a condição inescapável do ser humano: liberdade implica responsabilidade, mesmo (ou especialmente) quando agimos sem plena consciência dos nossos desejos mais profundos.
Origem Histórica
A citação reflete o pensamento de Jean-Paul Sartre (1905-1980), figura central do existencialismo francês do pós-Segunda Guerra Mundial. Este movimento filosófico, que ganhou enorme popularidade nas décadas de 1940 e 1950, reagia contra visões deterministas da natureza humana (como as religiosas ou as materialistas) e enfatizava a liberdade, a escolha e a responsabilidade individual num mundo percebido como absurdo e desprovido de sentido pré-estabelecido. O contexto histórico de reconstrução e questionamento de valores após a guerra tornou o terreno fértil para estas ideias.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância pungente na sociedade contemporânea. Num mundo de hiper-escolha (desde carreiras até estilos de vida), a afirmação 'não sabemos o que queremos' ressoa com a ansiedade da indecisão e do excesso de opções. Paralelamente, a cultura da 'vitimização' e a tendência para atribuir a culpa dos nossos fracassos a fatores externos (sociedade, algoritmos, educação) entram em choque direto com o apelo sartriano à responsabilidade pessoal. A frase desafia-nos a deixar de procurar desculpas externas e a assumir a autoria, por vezes desconfortável, das nossas vidas.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída ao pensamento de Sartre e aparece em várias das suas obras e palestras, sendo uma síntese acessível da sua filosofia. Pode ser encontrada em contextos como o ensaio 'O Existencialismo é um Humanismo' (1946) ou em peças de teatro como 'As Moscas', onde explora temas de liberdade e culpa.
Citação Original: "Nous ne savons pas ce que nous voulons et pourtant nous sommes responsables de ce que nous sommes, voilà le fait." (Francês)
Exemplos de Uso
- Num contexto de coaching de carreira: 'Perante uma mudança profissional, lembre-se de Sartre: podemos não ter a certeza do caminho, mas somos responsáveis pela escolha que fizermos.'
- Na reflexão pessoal sobre erros: 'Em vez de culpar os outros pelo meu fracasso, tento encarar a ideia de que, mesmo confuso, sou responsável por quem me tornei.'
- No debate sobre responsabilidade social vs. individual: 'A frase de Sartre não nega influências sociais, mas recorda que, no final, a resposta individual a essas influências é da nossa responsabilidade.'
Variações e Sinônimos
- "O homem está condenado a ser livre." (Sartre)
- "A vida é o que fazemos dela." (Ditado popular)
- "Colhemos o que semeamos." (Provérbio bíblico)
- "A liberdade é a possibilidade do isolamento." (Fernando Pessoa)
Curiosidades
Jean-Paul Sartre recusou o Prémio Nobel de Literatura em 1964, argumentando que um escritor não devia deixar-se transformar numa 'instituição' e que a sua aceitação comprometeria a sua independência intelectual – um ato de coerência com a sua filosofia da responsabilidade e autenticidade.


