Frases de Mia Couto - A poeira não vem da terra mas...

A poeira não vem da terra mas dos anos. Temos medo do pó porque é uma prova de que o Tempo existe e nos vai tornar obsoletos, quase minerais.
Mia Couto
Significado e Contexto
A citação opera uma inversão conceptual profunda: a poeira, normalmente associada à terra e à matéria inerte, é reinterpretada como um produto do tempo. O autor sugere que o que acumulamos nas superfícies não é geológico, mas cronológico – são camadas de anos passados, fragmentos do próprio tempo materializados. O medo que ela inspira não é de sujidade, mas de consciência: a poeira torna visível e tangível a passagem implacável do tempo, funcionando como um lembrete mudo de que tudo, incluindo nós, está sujeito ao desgaste e à transformação final em algo 'quase mineral', um estado de imobilidade e obsolescência. É uma reflexão sobre a fugacidade da vida humana perante a escala do tempo cósmico ou geológico.
Origem Histórica
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, é um dos mais importantes escritores moçambicanos contemporâneos, conhecido por uma prosa poética que funde realismo mágico, tradição oral e uma profunda reflexão sobre a identidade pós-colonial. A sua escrita frequentemente aborda temas como a memória, o tempo, a transformação e a relação entre o homem e a natureza. Esta citação insere-se na sua característica linguagem metafórica e filosófica, que reconceptualiza elementos do quotidiano para explorar questões existenciais. Embora a origem exata da frase não seja especificada num único livro, ecoa temas centrais da sua obra, como a perceção do tempo não-linear presente em 'Terra Sonâmbula' ou 'A Confissão da Leoa'.
Relevância Atual
Num mundo acelerado, obcecado pela novidade e pela juventude, esta frase mantém uma relevância pungente. Ela convida a uma pausa reflexiva sobre a nossa relação com o envelhecimento, a impermanência e o valor do que é considerado 'obsoleto'. Num contexto de crise ecológica, a ideia de nos tornarmos 'quase minerais' também ressoa com questões sobre o legado humano e a nossa reintegração final no planeta. A metáfora fala diretamente à ansiedade contemporânea face à passagem do tempo e ao medo de irrelevância, seja pessoal, tecnológica ou cultural.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a Mia Couto em antologias e coleções de suas frases, mas não está identificada com um título específico de livro numa fonte canónica única. É provavelmente uma reflexão extraída de entrevistas, discursos ou dos seus textos mais breves e aforísticos.
Citação Original: A poeira não vem da terra mas dos anos. Temos medo do pó porque é uma prova de que o Tempo existe e nos vai tornar obsoletos, quase minerais.
Exemplos de Uso
- Num ensaio sobre envelhecimento digital: 'Como a citação de Mia Couto sugere, o medo da obsolescência tecnológica é um eco do nosso medo primordial face ao tempo.'
- Numa reflexão sobre património e memória: 'Conservar um objeto antigo é lutar contra a poeira dos anos, contra essa prova do tempo que Mia Couto tão poeticamente descreveu.'
- Num contexto de mindfulness ou slow living: 'Aceitar a poeira nas nossas casas pode ser um exercício de aceitação da passagem do tempo, como propõe Mia Couto.'
Variações e Sinônimos
- "O tempo escreve a sua história na poeira." (Ditado adaptado)
- "A ferrugem é a poeira do metal." (Analogia popular)
- "Nada é permanente, exceto a mudança." (Heráclito, tema similar)
- "A poeira do esquecimento." (Expressão comum sobre memória)
Curiosidades
Mia Couto é biólogo de formação, o que talvez influencie a sua precisão metafórica ao descrever processos de transformação e decomposição, como a ideia de nos tornarmos 'quase minerais', um processo geológico.


