Frases de Clarice Lispector - Estou cansada. Meu cansaço ve...

Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.
Clarice Lispector
Significado e Contexto
A citação de Clarice Lispector opera em dois níveis interligados. Num plano literal, expressa o esgotamento físico e mental de uma pessoa sobrecarregada com tarefas. No entanto, a genialidade da frase reside na sua camada metafórica: 'tomar conta do mundo' não se refere a uma ocupação concreta, mas a uma postura existencial. A autora sugere que o cansaço profundo muitas vezes deriva de uma hiper-responsabilidade internalizada – a sensação de que devemos resolver, controlar ou carregar os problemas à nossa volta, como se o peso do mundo repousasse sobre os nossos ombros. Esta é uma crítica subtil à autocobrança excessiva e à ilusão de omnipotência que caracteriza a vida moderna. A ironia presente na construção da frase é fundamental. Lispector contrasta a trivialidade de 'estar cansada' com a grandiosidade de 'tomar conta do mundo', criando um paradoxo que expõe a contradição humana. O cansaço deixa de ser um mero sintoma físico para se tornar um sinal de um envolvimento emocional e ético desmesurado com a realidade. A frase convida à reflexão sobre os limites da nossa responsabilidade individual perante a complexidade do mundo, questionando até que ponto o nosso desgaste é um fardo necessário ou uma escolha inconsciente.
Origem Histórica
Clarice Lispector (1920-1977) foi uma das mais importantes escritoras brasileiras do século XX, conhecida pela sua prosa introspetiva e filosófica. A citação reflete temas centrais da sua obra, como a angústia existencial, a solidão e a busca de significado na vida quotidiana. Embora a origem exata da frase (se de uma obra específica ou de uma declaração pública) não seja amplamente documentada, ela encapsula perfeitamente o estilo lispectoriano de mergulhar nas profundezas da experiência humana através de aparentes banalidades. O contexto histórico do Brasil mid-century, com rápidas transformações sociais e urbanas, pode ter influenciado esta perceção de sobrecarga e desenraizamento.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância extraordinária na sociedade contemporânea, marcada pela cultura do 'burnout', da hiperconetividade e da pressão por desempenho múltiplo. Num mundo onde as redes sociais amplificam a exposição a problemas globais (crises climáticas, conflitos, desigualdades), muitos indivíduos internalizam uma sensação de responsabilidade esmagadora. A citação ressoa com quem se sente sobrecarregado não apenas por tarefas profissionais ou domésticas, mas pelo peso emocional de 'ter de se preocupar com tudo'. Tornou-se um símbolo da exaustão geracional e da necessidade de redefinir limites entre ação pessoal e impotência perante sistemas complexos.
Fonte Original: Atribuída a Clarice Lispector em contextos informais, colóquios ou entrevistas. Não está confirmada numa obra publicada específica, mas é amplamente citada como representativa do seu pensamento.
Citação Original: Estou cansada. Meu cansaço vem muito porque sou pessoa extremamente ocupada: tomo conta do mundo.
Exemplos de Uso
- Num debate sobre saúde mental no trabalho, um participante usou a frase para descrever a exaustão dos gestores que assumem responsabilidades além das suas funções.
- Num artigo sobre ativismo climático, a citação ilustrou o desgaste emocional de jovens que carregam a ansiedade pelo futuro do planeta.
- Numa sessão de coaching, uma cliente referiu-se à frase para explicar o seu cansaço crónico, associado à necessidade de controlar todos aspetos da vida familiar e profissional.
Variações e Sinônimos
- 'Carregar o mundo nas costas'
- 'Sentir o peso do mundo'
- 'A fadiga de Atlas' (referência mitológica)
- 'Cansaço de ser responsável por tudo e todos'
- 'Exaustão por hiper-responsabilidade'
Curiosidades
Clarice Lispector era de origem judaica ucraniana e chegou ao Brasil ainda bebé, fugindo da perseguição. Esta experiência de deslocamento pode ter influenciado a sua sensibilidade para temas como o pertencimento e a responsabilidade perante um mundo fragmentado.


