Frases de Cícero - A ganância é uma espécie de...

A ganância é uma espécie de sede que nunca passa, nunca se sacia. E as pessoas vivem atormentadas não apenas com o desejo de aumentar o que já tem, mas também com o medo de o perder.
Cícero
Significado e Contexto
A citação de Cícero descreve a ganância não como um simples desejo material, mas como uma condição psicológica profunda e autodestrutiva. Ao compará-la a uma 'sede que nunca passa', ele sugere que é um estado de carência permanente, onde a aquisição de mais bens não traz alívio genuíno, apenas alimenta o ciclo. O segundo aspeto crucial é o binómio desejo-medo: a pessoa gananciosa é atormentada tanto pela ambição de acumular como pelo terror de ver o seu património diminuir. Isto cria uma prisão mental onde nunca há paz, apenas uma agitação constante entre a cobiça e a ansiedade. Filosoficamente, isto alinha-se com ideias estoicas e epicuristas que alertam para os perigos de colocar a felicidade em bens externos e voláteis.
Origem Histórica
Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) foi um dos maiores oradores, filósofos e políticos da Roma Antiga. Viveu durante o turbulento final da República Romana, uma era marcada por guerras civis, corrupção e lutas pelo poder entre figuras como Júlio César e Pompeu. O seu pensamento foi profundamente influenciado pela filosofia grega, especialmente pelo estoicismo e pelo platonismo. Muitas das suas reflexões sobre ética, virtude e os vícios humanos, como a ganância, surgem no contexto de tentar entender e combater a decadência moral que via à sua volta, a qual considerava uma ameaça à estabilidade da República.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância impressionante na sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo, pela cultura do 'mais é sempre melhor' e pela ansiedade financeira. Ilustra perfeitamente o ciclo vicioso do materialismo moderno: as pessoas trabalham incessantemente para acumular riqueza ou bens, mas muitas vezes encontram-se mais stressadas e insatisfeitas, presas entre a pressão para subir e o medo de cair (por exemplo, numa crise económica). É também aplicável a fenómenos como a especulação financeira desmedida, a obsessão com o crescimento infinito das empresas ou a comparação social nas redes sociais, onde o desejo de status e o medo de o perder geram mal-estar psicológico.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a Cícero nas suas obras filosóficas e éticas, embora a localização exata possa variar. É consistente com ideias expressas em obras como 'De Officiis' (Sobre os Deveres) ou nos seus discursos, onde criticava a avareza e a corrupção.
Citação Original: Avaritia est immoderata, inexplebilis, non modo ut augeatur, sed ne minuatur quidem timor.
Exemplos de Uso
- Na psicologia económica, explica por que alguns investidores, mesmo após grandes ganhos, continuam a assumir riscos excessivos, movidos pelo medo de 'não ter o suficiente'.
- No debate sobre sustentabilidade, ilustra como o crescimento económico infinito, sem considerar os limites planetários, é uma forma de ganância coletiva que teme a estagnação.
- No contexto pessoal, descreve a experiência de quem acumula posses (como tecnologia ou roupa) mas sente ansiedade em mantê-las atualizadas ou em perfeito estado, sem nunca desfrutar verdadeiramente delas.
Variações e Sinônimos
- A ganância é um abismo sem fundo.
- Quem tudo quer, tudo perde.
- A avareza é a mãe da pobreza (provérbio popular).
- O ganancioso nunca tem bastante.
- A cobiça rompe o saco.
Curiosidades
Cícero, apesar das suas críticas à ganância, era ele próprio um homem muito rico e ambicioso politicamente. A sua vida reflete a complexidade de viver num sistema onde a riqueza e o poder estavam intrinsecamente ligados, mesmo para quem filosofava sobre os seus perigos.


