Frases de Cícero - Está em nossas mãos apagar i...

Está em nossas mãos apagar inteiramente da nossa memória os infortúnios e as recordações desagradáveis.
Cícero
Significado e Contexto
A citação de Cícero, "Está em nossas mãos apagar inteiramente da nossa memória os infortúnios e as recordações desagradáveis", é uma afirmação profunda sobre a agência humana perante o sofrimento. No seu núcleo, defende que não somos meras vítimas passivas das experiências negativas, mas que possuímos a capacidade cognitiva e volitiva de decidir a que memórias damos atenção e poder. Isto não nega a realidade da dor, mas propõe que a nossa liberdade reside em não permitir que essas recordações nos definam ou controlem o presente. Filosoficamente, esta ideia alinha-se com correntes como o Estoicismo, que enfatizavam o controle das perceções e reações internas como caminho para a tranquilidade da alma (ataraxia). Cícero sugere que 'apagar' é um ato de libertação psicológica, uma escolha deliberada de focar no que edifica, em vez de se deixar consumir pelo passado. É uma visão otimista da resiliência humana, que antecipa conceitos modernos de gestão emocional e saúde mental.
Origem Histórica
Marco Túlio Cícero (106-43 a.C.) foi um dos mais influentes oradores, filósofos e políticos da Roma Antiga. Viveu durante o conturbado final da República Romana, um período marcado por guerras civis, conspirações e instabilidade política, onde ele próprio enfrentou exílio e perseguição. O seu pensamento foi profundamente moldado pela filosofia grega, especialmente pelo Estoicismo, Epicurismo e pela Academia de Platão. Muitas das suas reflexões sobre ética, virtude e a vida boa foram desenvolvidas nos seus últimos anos, após a sua retirada da vida política ativa, em obras como 'Das Obrigações' (De Officiis) e 'Discussões em Tusculum' (Tusculanae Disputationes), onde explorou temas como a dor, a morte e a felicidade.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância extraordinária na atualidade, especialmente no contexto da psicologia positiva e das preocupações com a saúde mental. Num mundo onde o stress, a ansiedade e o trauma são amplamente discutidos, a ideia de que temos algum controlo sobre a narrativa interna é empoderadora. Ressoa com técnicas terapêuticas modernas como a reestruturação cognitiva, que visa desafiar e modificar padrões de pensamento negativos. Além disso, numa era de excesso de informação e recordações digitais, a citação lembra-nos da importância da 'higiene mental' – a necessidade consciente de deixar ir o que nos prejudica para preservar o bem-estar psicológico.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a Cícero, mas a sua origem exata dentro da sua vasta obra não é consensual entre os especialistas. É comummente associada ao espírito das suas 'Discussões em Tusculum' (Tusculanae Disputationes), uma série de cinco livros onde debate questões sobre a felicidade, a dor e a imortalidade da alma. No entanto, pode ser uma paráfrase ou uma síntema moderna do seu pensamento sobre a superação da adversidade.
Citação Original: In nostra potestate est, omnem memoriam malorum ac molestiarum delere.
Exemplos de Uso
- Após um desentendimento profissional, em vez de ruminar sobre o conflito, decidiu aplicar o conselho de Cícero e focar-se nas novas oportunidades, 'apagando' progressivamente a recordação desagradável.
- Em terapia, aprendeu que não pode mudar um evento traumático do passado, mas pode trabalhar para reduzir o seu impacto emocional presente, num exercício moderno de 'apagar' o poder dessa memória.
- Um coach de vida incentiva os seus clientes a praticar a gratidão diária, argumentando que este hábito ajuda a 'sobrescrever' mentalmente as recordações negativas, alinhando-se com a visão de Cícero.
Variações e Sinônimos
- Deixa o passado para trás.
- O que não mata, fortalece.
- A vida segue em frente.
- Não olhes para trás com raiva, nem para a frente com medo, mas à tua volta com atenção.
- Perdoar é libertar um prisioneiro e descobrir que o prisioneiro eras tu.
Curiosidades
Cícero foi assassinado em 43 a.C. por ordem do Segundo Triunvirato (Octaviano, Marco António e Lépido). Conta-se que as suas mãos e a língua (os instrumentos da sua eloquência) foram cortadas e exibidas no Fórum Romano como um aviso contra a liberdade de expressão. A sua filosofia sobre controlar a memória contrasta ironicamente com a forma violenta como a história o recorda.


