Frases de Francis Bacon - A raiz de toda a superstição...

A raiz de toda a superstição é que os homens observam quando uma coisa atinge, mas não quando falha.
Francis Bacon
Significado e Contexto
A citação de Francis Bacon aponta para um viés cognitivo fundamental: os seres humanos têm uma tendência natural a prestar atenção e a lembrar-se de eventos que confirmam as suas expectativas ou crenças, enquanto ignoram ou esquecem os casos em que essas mesmas expectativas não se concretizam. Este fenómeno, hoje estudado pela psicologia cognitiva como 'viés de confirmação', é apontado por Bacon como a base psicológica que permite o surgimento e a persistência de superstições. Quando alguém atribui um resultado positivo a um ritual ou objeto de sorte, raramente contabiliza as vezes em que realizou o mesmo ato e o resultado foi neutro ou negativo, criando assim uma ilusão de causalidade onde existe apenas correlação acidental. Bacon, um dos pais do método científico moderno, argumenta que esta falha na observação impede o pensamento racional e o avanço do conhecimento. A verdadeira compreensão do mundo exige que se registem tanto os sucessos como os fracassos de uma hipótese. A superstição, portanto, floresce não por falta de inteligência, mas por uma observação seletiva e incompleta da realidade. É um apelo ao rigor metodológico e à humildade intelectual, lembrando-nos de que o que não vemos ou não notamos pode ser tão importante quanto o que capta a nossa atenção.
Origem Histórica
Francis Bacon (1561-1626) foi um filósofo, estadista e pioneiro do empirismo e do método científico durante o Renascimento inglês. Viveu numa época de transição entre o pensamento medieval, baseado na autoridade e na tradição, e a revolução científica moderna. A sua obra visava reformar o processo de aquisição de conhecimento, afastando-o da superstição e da lógica escolástica e aproximando-o da observação metódica e da experimentação. Esta citação reflete o seu projeto de identificar e combater os 'ídolos' ou preconceitos da mente que distorcem a perceção humana e impedem a descoberta da verdade.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância extraordinária no mundo contemporâneo. O 'viés de confirmação' que Bacon descreveu é amplamente reconhecido na psicologia, nas ciências sociais e na tomada de decisões. Explica a persistência de teorias da conspiração, a polarização política (onde cada lado só vê informações que confirmam as suas crenças), e até alguns aspetos dos algoritmos das redes sociais, que nos mostram conteúdo semelhante ao que já consumimos. Na era da desinformação, compreender esta raiz da superstição é crucial para desenvolver o pensamento crítico, o ceticismo saudável e a literacia mediática. É um antídoto intelectual contra a credulidade.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída aos seus escritos filosóficos, mais concretamente à sua obra 'Novum Organum' (1620), onde Bacon expõe a sua teoria dos 'ídolos da mente' que obstruem o conhecimento verdadeiro. Embora a formulação exata possa variar ligeiramente nas traduções, o conceito central é inequivocamente baconiano.
Citação Original: The root of all superstition is that men observe when a thing hits, but not when it misses.
Exemplos de Uso
- Um jogador de futebol que sempre usa as mesmas meias 'da sorte' nos dias de jogo e atribui os golos a elas, ignorando todos os jogos em que as usou e a equipa perdeu.
- Uma pessoa que acredita que partiu um espelho e por isso teve uma semana de azar, sem considerar as muitas outras semanas de azar que teve sem partir nenhum espelho.
- Investidores que atribuem os seus ganhos no mercado financeiro a um 'instinto especial' ou a um padrão que identificaram, desvalorizando as perdas como 'azar do mercado' ou exceções.
Variações e Sinônimos
- Ver o que se quer ver.
- A memória é seletiva.
- Atribuir causalidade a correlações.
- O viés de confirmação em ação.
- O acaso vestido de padrão.
Curiosidades
Francis Bacon morreu de pneumonia, supostamente contraída enquanto realizava um dos seus primeiros experimentos científicos: tentar conservar um frango enchendo-o de neve. A ironia é que um dos grandes críticos da superstição morreu numa tentativa prática de avançar o conhecimento empírico.


