Frases de Padre António Vieira - Enfim, que neste jogo que o mu

Frases de Padre António Vieira - Enfim, que neste jogo que o mu...


Frases de Padre António Vieira


Enfim, que neste jogo que o mundo chama da fortuna, não consta o ser má ou boa, senão no bom ou mau uso dela.

Padre António Vieira

Esta citação revela que a fortuna, por si só, não é inerentemente boa ou má. O seu valor moral depende inteiramente do uso que dela fazemos, colocando a responsabilidade ética nas mãos do ser humano.

Significado e Contexto

Esta citação do Padre António Vieira desloca o foco da natureza intrínseca da 'fortuna' (entendida como riqueza, sorte ou circunstâncias favoráveis) para o modo como a utilizamos. Vieira argumenta que a fortuna é neutra – não é boa nem má por si mesma. A qualidade moral surge apenas através da ação humana: um 'bom uso' (caridade, investimento social, desenvolvimento pessoal) torna-a virtuosa, enquanto um 'mau uso' (egoísmo, corrupção, ostentação vazia) a corrompe. Esta perspetiva convida a uma reflexão sobre a responsabilidade individual perante os bens e oportunidades que a vida oferece, enfatizando que o valor ético reside na intenção e na ação, não no objeto em si. A metáfora do 'jogo' sugere que a distribuição da fortuna no mundo pode parecer arbitrária ou sujeita ao acaso, tal como num jogo de sorte. No entanto, Vieira sublinha que, independentemente de como a recebemos, o que verdadeiramente importa é a forma como a jogamos – ou seja, as escolhas que fazemos com ela. Esta visão é profundamente humanista e prática, pois atribui ao ser humano o poder e o dever de conferir significado moral às suas posses e circunstâncias, transcendendo uma visão fatalista ou meramente materialista da sorte e da riqueza.

Origem Histórica

Padre António Vieira (1608-1697) foi um dos maiores oradores e escritores do barroco português, conhecido pelos seus 'Sermões'. Viveu durante o período da União Ibérica e da Restauração da Independência de Portugal, numa época de expansão colonial, conflitos religiosos e grandes desigualdades sociais. Os seus sermões, muitas vezes proferidos perante a corte e altas figuras, não eram apenas discursos religiosos, mas também intervenções políticas e sociais audazes. Neste contexto, criticava frequentemente a corrupção, a ganância dos poderosos e a exploração dos mais fracos, especialmente dos povos indígenas no Brasil, onde também exerceu missão. A reflexão sobre a 'fortuna' e o seu uso ético surge neste ambiente, como um apelo à responsabilidade dos que detinham riqueza e poder.

Relevância Atual

Esta frase mantém uma relevância extraordinária no mundo contemporâneo, marcado por debates sobre desigualdade social, ética nos negócios, responsabilidade social corporativa e consumo consciente. Num tempo de riqueza material sem precedentes para alguns, a questão de como usar os recursos (sejam financeiros, tecnológicos ou de influência) de forma boa ou má é mais premente do que nunca. A citação serve como um lembrete atemporal: a sorte, o sucesso ou a riqueza não são virtudes por si sós; o seu verdadeiro valor é determinado pelo impacto que têm na sociedade e no bem-estar coletivo. É uma mensagem crucial para empreendedores, líderes e cidadãos comuns, incentivando uma reflexão sobre o propósito por trás das nossas aquisições e conquistas.

Fonte Original: A citação é extraída dos 'Sermões' do Padre António Vieira. Embora a localização exata (sermão e data) possa variar consoante as edições, a frase é frequentemente atribuída e citada no âmbito da sua vasta obra oratória, que abordava temas teológicos, morais e sociais.

Citação Original: Enfim, que neste jogo que o mundo chama da fortuna, não consta o ser má ou boa, senão no bom ou mau uso dela.

Exemplos de Uso

  • Um empresário que usa os seus lucros para criar programas de formação para desempregados está a dar um 'bom uso' à sua fortuna, transformando-a num instrumento de progresso social.
  • Herdar uma grande quantia de dinheiro e gastá-la apenas em luxos efémeros, sem contribuir para nada além do próprio prazer imediato, pode ser considerado um 'mau uso' segundo a perspetiva de Vieira.
  • Uma pessoa que ganha na lotaria e decide financiar investigação médica ou apoiar instituições de caridade está a jogar o 'jogo da fortuna' de forma ética, conferindo-lhe um valor moral positivo.

Variações e Sinônimos

  • A riqueza em si não é virtude nem vício; tudo depende do uso que se faz dela.
  • Não é o ter, mas o como se usa o que se tem, que define o caráter.
  • A sorte é neutra; a moralidade está na ação que ela possibilita.
  • O dinheiro é uma ferramenta; o bem ou mal está nas mãos de quem o maneja.
  • Ditado popular: 'O dinheiro não traz felicidade, mas ajuda muito.' (variante que aborda o uso, não a posse).

Curiosidades

Padre António Vieira foi tão influente e controverso que foi perseguido pela Inquisição, que o considerou 'herege, ímpio e rebelde'. Acabou por ser absolvido, mas a sua coragem em pregar contra as injustiças, mesmo perante o poder estabelecido, reflete-se nesta citação que desafia os detentores de 'fortuna' a usá-la com retidão.

Perguntas Frequentes

O que significa 'fortuna' nesta citação?
Neste contexto, 'fortuna' refere-se não apenas à riqueza material, mas a qualquer forma de sorte, oportunidade, vantagem ou bem que uma pessoa possa adquirir ou receber na vida, seja por mérito, herança ou acaso.
Qual é a principal mensagem ética da frase?
A mensagem central é que a responsabilidade moral reside no agente humano. Em vez de culparmos ou glorificarmos a 'sorte' ou a 'riqueza', devemos focar-nos em como escolhemos utilizar os recursos e oportunidades que temos, pois é essa escolha que define o seu valor ético (bom ou mau uso).
Esta ideia é compatível com visões religiosas?
Sim, plenamente. Como jesuíta, Vieira enquadra esta visão na teologia moral cristã, que enfatiza a responsabilidade do homem perante os dons de Deus. A fortuna é vista como um talento ou recurso confiado ao homem, que deve ser usado de acordo com a vontade divina e o bem comum.
Como posso aplicar esta reflexão no dia a dia?
Pode aplicá-la refletindo, perante qualquer recurso (tempo, dinheiro, conhecimento, influência): 'Estou a usar isto para o meu benefício egoísta ou para contribuir positivamente para algo além de mim?' A ação consciente transforma a posse neutra em ato moral.

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