Frases de Michel de Montaigne - A ignorância que se conhece, ...

A ignorância que se conhece, se julga e se condena não é uma ignorância completa: para que o seja, é preciso que se ignore a si mesma.
Michel de Montaigne
Significado e Contexto
Esta frase de Michel de Montaigne distingue dois níveis de ignorância. A primeira é uma ignorância consciente, onde a pessoa reconhece que não sabe algo, julga essa lacuna e pode até condená-la em si mesma. Esta forma de ignorância não é completa porque contém um elemento de autocrítica e consciência. A verdadeira ignorância completa, segundo Montaigne, ocorre quando a pessoa nem sequer tem consciência da sua própria falta de conhecimento. É uma ignorância que se ignora a si mesma, tornando-se mais perigosa porque elimina a possibilidade de questionamento e crescimento. No contexto educativo, esta distinção é fundamental. Montaigne, um humanista do Renascimento, valorizava o ceticismo moderado e a constante busca pelo conhecimento. A sua observação alerta para o perigo da arrogância intelectual, onde alguém acredita saber mais do que realmente sabe. A verdadeira sabedoria, sugerida implicitamente, começa com o reconhecimento das próprias limitações, um princípio que ecoa o famoso 'só sei que nada sei' de Sócrates.
Origem Histórica
Michel de Montaigne (1533-1592) foi um filósofo, escritor e humanista francês do período do Renascimento. Viveu durante as Guerras de Religião em França, um contexto de conflitos religiosos e políticos que o levou a questionar dogmas e certezas absolutas. A sua obra principal, 'Ensaios', é considerada uma das primeiras obras de autobiografia e reflexão pessoal na literatura ocidental, onde explorou temas como a moral, a educação e a natureza humana com um estilo introspetivo e cético.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância notável no mundo contemporâneo, especialmente na era da informação e das redes sociais. Num tempo onde o acesso ao conhecimento é vasto, mas muitas vezes superficial, a ignorância que se ignora a si mesma pode manifestar-se em fenómenos como a desinformação, os preconceitos inconscientes ou a confiança excessiva em opiniões não fundamentadas. Na educação, a citação reforça a importância de desenvolver o pensamento crítico e a autocrítica, incentivando os estudantes a questionarem não apenas o que sabem, mas também o que desconhecem. Em contextos profissionais e pessoais, serve como um lembrete para cultivar a humildade intelectual e a abertura à aprendizagem contínua.
Fonte Original: A citação é retirada da obra 'Ensaios' (em francês: 'Essais'), mais especificamente do Livro II, capítulo 12, intitulado 'Apologia de Raymond Sebond'. Neste capítulo extenso, Montaigne explora temas como a razão humana, a fé e as limitações do conhecimento.
Citação Original: L'ignorance qui se sait, se juge et se condamne, n'est pas une entière ignorance : pour l'être, il faut qu'elle s'ignore soi-même.
Exemplos de Uso
- Num debate sobre alterações climáticas, alguém que reconhece não entender completamente a ciência do clima demonstra uma ignorância consciente, enquanto quem nega as evidências sem base científica pode exemplificar a ignorância completa que Montaigne descreve.
- Em formação empresarial, um líder que admite não dominar certas tecnologias e procura aprender mostra humildade intelectual, contrastando com outro que toma decisões baseadas em suposições não verificadas, ignorando as próprias lacunas.
- Na educação, um estudante que identifica dificuldades numa matéria e pede ajuda está a evitar a 'ignorância completa', ao passo que outro que acredita saber tudo sem estudar pode cair nessa armadilha.
Variações e Sinônimos
- "Só sei que nada sei" - atribuído a Sócrates
- "Quanto mais sei, mais sei que nada sei" - variação moderna do princípio socrático
- "A maior ignorância é rejeitar algo sobre o qual nada se sabe" - provérbio adaptado
- "O tolo pensa que é sábio, mas o sábio sabe que é tolo" - de 'As You Like It' de Shakespeare
Curiosidades
Montaigne escreveu os 'Ensaios' numa torre do seu castelo, onde tinha uma biblioteca com cerca de 1000 livros, um número impressionante para a época. As suas reflexões eram frequentemente intercaladas com citações clássicas em latim e grego, refletindo a sua erudição humanista.


