Frases de Fernando Pessoa - Com um charuto caro e os olhos...

Com um charuto caro e os olhos fechados é ser rico.
Fernando Pessoa
Significado e Contexto
A citação 'Com um charuto caro e os olhos fechados é ser rico.' de Fernando Pessoa opera em dois níveis. Num primeiro plano, descreve um ato aparentemente mundano – fumar um charuto de luxo – mas subverte-o ao associá-lo ao gesto de fechar os olhos. Este fechar os olhos não representa sono ou cansaço, mas sim uma virada para o interior, uma contemplação. A riqueza, assim, não está apenas no objeto caro (o charuto), mas na experiência subjetiva e introspetiva que ele possibilita. É uma riqueza de sensação, de presença no momento, de gozo íntimo e pessoal que transcende o valor monetário do objeto. Num nível mais profundo, a frase critica sutilmente as noções convencionais de riqueza, que se centram na acumulação e exibição de bens. Para Pessoa, a verdadeira riqueza pode ser um estado de espírito alcançado através da simplicidade consciente e da atenção plena. O 'charuto caro' pode ser visto como um símbolo de todo o supérfluo ou luxo que a sociedade valoriza, mas é o ato introspetivo ('os olhos fechados') que verdadeiramente confere valor à experiência, transformando-a em algo rico e significativo. É uma defesa da qualidade da experiência sobre a quantidade de posses.
Origem Histórica
Fernando Pessoa (1888-1935) é o maior poeta português do século XX e uma figura central do Modernismo. A citação reflete temas caros à sua obra e ao seu tempo: o desencanto com os valores burgueses materialistas, a busca de significado para além das aparências e a importância da vida interior. Escrita no início do século XX, período de grandes transformações sociais e questionamento de valores tradicionais, a frase ecoa o cepticismo e a introspeção característicos da sensibilidade modernista. Pessoa, através dos seus heterónimos (como Álvaro de Campos, Bernardo Soares e Alberto Caeiro), explorou incessantemente as contradições entre o ser e o parecer, o interior e o exterior.
Relevância Atual
Esta frase mantém uma relevância pungente na sociedade contemporânea, marcada pelo consumismo, pela cultura da imagem (redes sociais) e pela busca incessante de sucesso material. Ela serve como um antídoto poético, lembrando-nos que o bem-estar e a plenitude muitas vezes residem em momentos simples de presença e contemplação, e não na aquisição de mais bens. Num mundo de excesso de estímulos e ruído, o convite para 'fechar os olhos' e valorizar a experiência subjetiva é um lembrete poderoso sobre mindfulness, desaceleração e a definição pessoal de sucesso e riqueza.
Fonte Original: A citação é atribuída a Fernando Pessoa e encontra-se frequentemente em coletâneas de aforismos e pensamentos seus. Pode ser associada ao tom reflexivo e fragmentário da sua obra em prosa, como no 'Livro do Desassossego' (atribuído ao heterónimo Bernardo Soares), embora não seja possível apontar uma obra específica com absoluta certeza. Faz parte do corpus dos seus textos breves e sentenciosos.
Citação Original: Com um charuto caro e os olhos fechados é ser rico.
Exemplos de Uso
- Num debate sobre felicidade, alguém pode citar Pessoa para argumentar que a riqueza é um estado de espírito, não uma conta bancária.
- Um artigo sobre mindfulness pode usar a frase para ilustrar a ideia de que a verdadeira abundância está em saborear plenamente uma experiência simples.
- Num contexto de crítica ao consumismo, a citação serve para contrastar a posse de objetos com a riqueza da experiência pessoal e introspetiva.
Variações e Sinônimos
- A riqueza está no sentir, não no ter.
- Mais vale um momento de paz que uma fortuna em agitação.
- O luxo supremo é a quietude da alma.
- Ditado popular: 'Quem tem pouco e está contente, é rico.'
Curiosidades
Fernando Pessoa era um fumador inveterado, o que talvez explique a escolha da imagem do charuto. No entanto, ironicamente, ele próprio viveu grande parte da vida com dificuldades financeiras, trabalhando como correspondente comercial de línguas estrangeiras, o que contrasta com a imagem de 'riqueza' que a frase evoca, reforçando a sua natureza filosófica e não autobiográfica.


