Frases de Fernando Pessoa - Vejo em, tudo, de facto, não

Frases de Fernando Pessoa - Vejo em, tudo, de facto, não ...


Frases de Fernando Pessoa


Vejo em, tudo, de facto, não o abstracto mas o não-concreto: é esta a natureza da minha abstracção de espírito — não o infinito mas o não-finito. Desta maneira eu, que me dedicava sempre à pura abstracção, não via senão os objectos em si próprios. Tenho medo de tudo, é verdade, mas não de todas as maneiras, apenas duma maneira só, isto é, abstracta e sonhadoramente, como na consciência do opiómano.

Fernando Pessoa

Esta citação revela uma visão paradoxal da abstração, onde o poeta não nega o concreto, mas transcende-o para um estado de consciência liminar. Reflete a busca de uma realidade além das aparências, através de um olhar que transforma o medo em experiência estética.

Significado e Contexto

Esta citação, atribuída a Fernando Pessoa, explora a natureza da percepção humana através de uma distinção subtil entre 'abstracto' e 'não-concreto'. O autor sugere que a sua forma de abstração não é uma fuga para o infinito ou para conceitos puramente teóricos, mas sim uma atenção ao 'não-finito' – aquilo que existe além dos limites definidos da realidade concreta. Esta abordagem permite-lhe ver os objetos 'em si próprios', libertos das associações habituais, mas também gera um medo peculiar, descrito como 'abstracto e sonhadoramente', semelhante ao estado alterado de consciência de um consumidor de ópio. Assim, a citação funde observação filosófica com experiência sensorial, propondo que a verdadeira abstração é uma imersão numa realidade alternativa, não uma negação do real. O tom educativo desta análise destaca como Pessoa desafia noções binárias. Em vez de opor concreto e abstracto, ele introduz o 'não-concreto' como uma categoria intermédia, onde a mente opera num registo poético e introspectivo. O medo mencionado não é um terror físico, mas uma apreensão metafísica, uma consciência aguda da precariedade da perceção. Esta perspetiva antecipa temas do existencialismo e da fenomenologia, mostrando como a literatura pode ser um veículo para investigações profundas sobre a natureza da mente e da realidade.

Origem Histórica

Fernando Pessoa (1888-1935) foi um dos maiores poetas portugueses do século XX, ativo durante o modernismo. A citação reflete o seu interesse pela filosofia, psicologia e estados alterados de consciência, comuns na literatura e arte da época (como no simbolismo e decadentismo). O contexto histórico inclui as transformações sociais e intelectuais do início do século XX, onde autores exploravam a subjetividade, o inconsciente e a fragmentação da identidade, influenciados por correntes como o ocultismo e as primeiras teorias psicanalíticas.

Relevância Atual

Esta frase mantém relevância hoje por abordar temas universais como a ansiedade existencial, a busca de significado além do material e a natureza da perceção humana. Num mundo dominado pela tecnologia e pela sobrecarga de informação, a ideia de uma 'abstração sonhadora' ressoa com quem procura escapar à concretude imediata através da introspeção ou da criação artística. Além disso, o paralelo com estados alterados de consciência (como o 'opiómano') dialoga com discussões contemporâneas sobre saúde mental, mindfulness e o uso de substâncias para expandir a perceção.

Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a Fernando Pessoa, possivelmente proveniente dos seus escritos em prosa, como 'Livro do Desassossego' (atribuído ao heterónimo Bernardo Soares) ou de cartas e textos filosóficos. No entanto, a origem exata não é sempre especificada em compilações de citações, sendo parte do vasto legado fragmentário do autor.

Citação Original: Vejo em, tudo, de facto, não o abstracto mas o não-concreto: é esta a natureza da minha abstracção de espírito – não o infinito mas o não-finito. Desta maneira eu, que me dedicava sempre à pura abstracção, não via senão os objectos em si próprios. Tenho medo de tudo, é verdade, mas não de todas as maneiras, apenas duma maneira só, isto é, abstracta e sonhadoramente, como na consciência do opiómano.

Exemplos de Uso

  • Na terapia artística, pacientes são encorajados a uma 'abstração sonhadora' para explorar emoções sem julgamento.
  • Filósofos contemporâneos discutem o 'não-concreto' como uma forma de perceber realidades virtuais e digitais.
  • Em debates sobre ansiedade, especialistas referem medos 'abstractos' ligados à incerteza existencial, sem causa específica.

Variações e Sinônimos

  • Ver além do aparente
  • A consciência do vazio
  • Medo metafísico
  • Abstração como imersão
  • Sonhar acordado filosoficamente

Curiosidades

Fernando Pessoa criou mais de 70 heterónimos (personagens literárias com biografias e estilos próprios), e esta citação pode refletir a sua capacidade de se desmultiplicar em perspetivas distintas, como se vivesse num estado permanente de 'não-concreto'.

Perguntas Frequentes

O que significa 'não-concreto' nesta citação?
Refere-se a uma realidade que não é totalmente abstracta (como conceitos puros) nem totalmente concreta (objetos físicos), mas uma dimensão intermédia onde a perceção opera de forma poética e introspectiva.
Por que compara a consciência à de um opiómano?
Pessoa usa esta analogia para descrever um estado alterado de perceção, onde o medo e a observação se tornam difusos, sonhadores e intensamente subjectivos, semelhante aos efeitos do ópio na consciência.
Como esta citação se relaciona com a obra de Pessoa?
Ela encapsula temas centrais da sua escrita, como a fragmentação da identidade, a exploração de estados mentais liminares e a busca de verdades além da realidade superficial, comuns em obras como 'Livro do Desassossego'.
Esta visão é relevante para a psicologia moderna?
Sim, dialoga com conceitos como dissociação, flow ou estados de consciência expandida, sendo estudada em contextos de criatividade, terapia e compreensão da experiência humana subjetiva.

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