Frases de Fernando Pessoa - Ter opiniões definidas e cert...

Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma num facto, de a materializar e tornar exterior.
Fernando Pessoa
Significado e Contexto
Esta citação expressa a ideia de que ter opiniões definidas, instintos fixos e um carácter conhecido representa um 'horror' porque transforma a alma num 'facto', ou seja, algo material, exterior e imutável. Pessoa critica a rigidez identitária, defendendo que a verdadeira essência humana reside na fluidez, na ambiguidade e na capacidade de ser múltiplo. A materialização da alma implica perdê-la como experiência interior viva, reduzindo-a a algo objectivo e limitado, o que vai contra a natureza complexa e inapreensível do ser. No contexto da obra pessoana, esta visão justifica a criação dos heterónimos – Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro – que permitem a Pessoa explorar diferentes facetas da existência sem se fixar numa única identidade. A citação alerta para os perigos da auto-definição excessiva, que pode aprisionar o indivíduo em rótulos sociais, expectativas ou narrativas pessoais rígidas, impedindo o devir e a autenticidade do eu em constante transformação.
Origem Histórica
Fernando Pessoa (1888-1935) é um dos maiores poetas portugueses, figura central do Modernismo em Portugal. Viveu numa época de profundas transformações sociais, políticas e culturais (fim da Monarquia, implantação da República, Primeira Guerra Mundial), que questionavam valores tradicionais e identidades fixas. A sua obra, escrita maioritariamente nas décadas de 1910 e 1920, reflecte esta crise de identidade e a busca de novas formas de expressão. A citação insere-se no seu pensamento filosófico e literário, que valoriza a despersonalização, o fragmento e a multiplicidade do eu, influenciado por correntes como o simbolismo, o decadentismo e mais tarde o sensacionismo.
Relevância Atual
Esta frase mantém-se profundamente relevante na sociedade contemporânea, onde as identidades são frequentemente reduzidas a perfis digitais, rótulos políticos, marcas pessoais ou categorias sociais rígidas. Num mundo que valoriza a auto-afirmação e a consistência, a advertência de Pessoa lembra-nos dos riscos de nos tornarmos 'factos' – previsíveis, superficialmente definidos e presos a narrativas limitadas. A ideia ressoa com discussões actuais sobre autenticidade, flexibilidade identitária e a pressão para performar um eu coerente nas redes sociais, incentivando uma reflexão sobre a liberdade de ser múltiplo e em constante evolução.
Fonte Original: A citação é atribuída a Fernando Pessoa, provavelmente proveniente dos seus textos em prosa, como 'Livro do Desassossego' (atribuído ao semi-heterónimo Bernardo Soares) ou de escritos filosóficos e ensaísticos. A obra pessoana é vasta e fragmentária, com muitos textos publicados postumamente.
Citação Original: Ter opiniões definidas e certas, instintos, paixões e carácter fixo e conhecido - tudo isto monta ao horror de tornar a nossa alma num facto, de a materializar e tornar exterior.
Exemplos de Uso
- Na era das redes sociais, criar uma imagem pública perfeita pode 'materializar a alma', reduzindo a complexidade humana a um perfil digital.
- A pressão para ter uma carreira linear e opiniões políticas consistentes ilustra o 'horror' de que fala Pessoa, limitando a liberdade de mudança.
- A terapia moderna muitas vezes incentiva a aceitação da fluidez emocional, contrariando a ideia de um 'carácter fixo' que materializa a alma.
Variações e Sinônimos
- Ser fiel a si mesmo pode ser uma prisão
- A identidade é uma ficção necessária
- Quem se define limita-se
- O eu é uma multiplicidade
- Viver é devir, não ser
Curiosidades
Fernando Pessoa criou mais de 70 heterónimos, cada um com biografia, estilo literário e visão de mundo próprios, praticando na sua vida o que esta citação defende: recusar uma identidade fixa para explorar a multiplicidade do ser.


