Frases de Fernando Pessoa - Nada há que tão notavelmente

Frases de Fernando Pessoa - Nada há que tão notavelmente...


Frases de Fernando Pessoa


Nada há que tão notavelmente determine o auge de uma civilização, como o conhecimento, nos que a vivem, da esterilidade de todo o esforço, porque nos regem leis implacáveis, que nada revoga nem obstrui. Somos, porventura, servos algemados ao capricho de deuses, mais fortes porém não melhores que nós, subordinados, nós como eles, à regência férrea de um Destino abstracto, superior à justiça e à bondade, alheio ao bem e ao mal.

Fernando Pessoa

Esta citação de Fernando Pessoa explora a ideia de que o ápice da civilização surge quando os seres humanos reconhecem a futilidade do esforço perante leis universais implacáveis. Reflete sobre a submissão humana a forças superiores e indiferentes, questionando o livre-arbítrio e a justiça cósmica.

Significado e Contexto

A citação sugere que a maturidade máxima de uma civilização ocorre quando os seus membros compreendem profundamente que todos os esforços humanos são, em última análise, estéreis, pois estão sujeitos a leis universais implacáveis que não podem ser alteradas ou obstruídas. Pessoa apresenta uma visão determinista e quase niilista, onde os seres humanos são servos de deuses caprichosos – mais fortes, mas não moralmente superiores – e todos, incluindo essas divindades, estão subordinados a um Destino abstracto, indiferente a conceitos humanos como justiça e bondade. Esta reflexão enquadra-se no pensamento filosófico que questiona o significado da ação humana num universo regido por forças além do nosso controlo. O 'auge' civilizacional não é medido pelo progresso material ou tecnológico, mas pela consciência coletiva da limitação humana perante o cosmos. A frase evoca temas como o fatalismo, a alienação cósmica e a busca por significado num mundo aparentemente indiferente, temas caros ao modernismo português e ao existencialismo.

Origem Histórica

Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu durante um período de grande agitação política, social e intelectual em Portugal e na Europa, marcado pela Primeira Guerra Mundial, pela instabilidade da Primeira República Portuguesa e pelo surgimento de correntes modernistas. A citação reflete influências do decadentismo, do simbolismo e de filosofias como o niilismo e o determinismo, comuns nas vanguardas do início do século XX. Pessoa, através dos seus heterónimos, explorava frequentemente temas de desilusão, identidade fragmentada e a relação do indivíduo com forças maiores e impessoais.

Relevância Atual

Esta frase mantém relevância hoje porque ressoa com questões contemporâneas sobre o sentido da ação humana face a desafios globais como as alterações climáticas, pandemias ou crises económicas, que podem parecer regidos por 'leis implacáveis'. Além disso, num mundo cada vez mais secular, a ideia de um 'Destino abstracto' alheio ao bem e ao mal dialoga com debates sobre moralidade objetiva, livre-arbítrio e o papel da ciência na compreensão do universo. A reflexão sobre a futilidade do esforço também ecoa em discussões sobre burnout, produtividade e bem-estar mental nas sociedades modernas.

Fonte Original: A citação é atribuída a Fernando Pessoa, mas a obra específica não é indicada. Pode pertencer aos seus escritos filosóficos ou poéticos, possivelmente associados a heterónimos como Álvaro de Campos ou Bernardo Soares, que frequentemente abordavam temas de desencanto e reflexão existencial.

Citação Original: Nada há que tão notavelmente determine o auge de uma civilização, como o conhecimento, nos que a vivem, da esterilidade de todo o esforço, porque nos regem leis implacáveis, que nada revoga nem obstrui. Somos, porventura, servos algemados ao capricho de deuses, mais fortes porém não melhores que nós, subordinados, nós como eles, à regência férrea de um Destino abstracto, superior à justiça e à bondade, alheio ao bem e ao mal.

Exemplos de Uso

  • Num debate sobre ética ambiental, pode-se citar Pessoa para questionar se os esforços humanos para salvar o planeta são fúteis perante leis naturais implacáveis.
  • Em terapia ou coaching, a frase pode servir para explorar sentimentos de impotência ou desespero perante circunstâncias incontroláveis, promovendo aceitação.
  • Num ensaio literário, pode ilustrar temas modernistas de alienação e a busca por significado num universo indiferente, comparando com autores como Camus ou Kafka.

Variações e Sinônimos

  • "O homem é um ser para a morte" (Martin Heidegger)
  • "O universo é indiferente" (existencialismo)
  • "Tudo é fútil debaixo do sol" (Eclesiastes, Bíblia)
  • "Nascemos para sofrer, para envelhecer e para morrer" (popular)
  • "Contra factos não há argumentos" (ditado popular)

Curiosidades

Fernando Pessoa criou mais de 70 heterónimos – personalidades literárias distintas com biografias, estilos e visões de mundo próprias – o que pode explicar a diversidade de perspectivas filosóficas nos seus escritos, incluindo esta visão determinista.

Perguntas Frequentes

O que significa 'leis implacáveis' na citação de Pessoa?
Refere-se a princípios universais ou cósmicos, como as leis da física, do destino ou da natureza, que são inexoráveis e não podem ser alteradas pela ação humana, tornando os esforços muitas vezes inúteis.
Como esta citação se relaciona com o existencialismo?
Partilha temas comuns ao existencialismo, como a confrontação com um universo indiferente, a liberdade limitada e a busca de significado perante a absurdidade da existência, embora Pessoa não se identificasse formalmente com essa corrente.
Por que é o 'auge' civilizacional associado à consciência da futilidade?
Pessoa sugere que a maturidade máxima de uma sociedade surge quando atinge um nível de reflexão profunda que reconhece os limites humanos, indo além do progresso material para uma compreensão filosófica da condição humana.
Esta citação é pessimista ou realista?
Pode ser interpretada como ambas: pessimista ao destacar a esterilidade do esforço, mas realista ao aceitar a existência de forças além do controlo humano, incentivando uma visão mais humilde e consciente da nossa posição no cosmos.

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