Frases de Fernando Pessoa - Escrever é esquecer. A litera

Frases de Fernando Pessoa - Escrever é esquecer. A litera...


Frases de Fernando Pessoa


Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Fernando Pessoa

Fernando Pessoa revela a literatura como um refúgio da realidade, onde a escrita se torna um ato de esquecimento voluntário. Através desta perspetiva, convida-nos a questionar as fronteiras entre arte e existência.

Significado e Contexto

Esta citação de Fernando Pessoa apresenta uma visão desencantada da literatura, contrastando-a com outras formas artísticas. Enquanto a música, as artes visuais e as artes performativas mantêm uma ligação direta com a vida - seja através de fórmulas visíveis ou da própria vivência humana -, a literatura distancia-se ao 'simular' a existência. Pessoa sugere que escrever é um ato de esquecimento, uma fuga deliberada da realidade para um espaço onde as histórias nunca aconteceram verdadeiramente, mas que paradoxalmente nos ajudam a compreender a vida. O autor estabelece uma hierarquia artística peculiar: o romance como 'história do que nunca foi', o drama como romance sem narrativa, e a poesia como expressão em linguagem artificial. Esta perspetiva reflete o pensamento modernista de Pessoa, que via na literatura não uma representação fiel da realidade, mas uma construção autónoma com suas próprias regras e verdades. A literatura torna-se assim um espaço de liberdade absoluta, onde o autor pode criar mundos alternativos que questionam nossa perceção do real.

Origem Histórica

Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu durante um período de profunda transformação cultural em Portugal e na Europa. O modernismo português, do qual foi figura central, questionava as convenções literárias e artísticas tradicionais. Esta citação reflete a desilusão pós-Primeira Guerra Mundial e o crescente cepticismo em relação às narrativas realistas. Pessoa desenvolvia nesta época seu sistema de heterónimos - personalidades literárias completas com biografias e estilos próprios -, prática que exemplifica perfeitamente sua ideia de literatura como 'simulação da vida'.

Relevância Atual

Esta reflexão mantém-se relevante na era digital, onde a fronteira entre realidade e ficção se torna cada vez mais ténue. As redes sociais, os videojogos e a realidade virtual atualizam o conceito pessoano de 'simulação da vida'. A citação ajuda a compreender por que buscamos constantemente narrativas ficcionais, desde séries televisivas a livros, como forma de escapar temporariamente às pressões da existência quotidiana. Num mundo sobrecarregado de informação, o 'esquecimento' proposital através da arte torna-se quase terapêutico.

Fonte Original: Do 'Livro do Desassossego', atribuído ao heterónimo Bernardo Soares. Esta obra fragmentária, publicada postumamente, reúne reflexões filosóficas e literárias que caracterizam o pensamento de Pessoa.

Citação Original: Escrever é esquecer. A literatura é a maneira mais agradável de ignorar a vida. A música embala, as artes visuais animam, as artes vivas (como a dança e a arte de representar) entretêm. A primeira, porém, afasta-se da vida por fazer dela um sono; as segundas, contudo, não se afastam da vida - umas porque usam de fórmulas visíveis e portanto vitais, outras porque vivem da mesma vida humana. Não é o caso da literatura. Essa simula a vida. Um romance é uma história do que nunca foi e um drama é um romance dado sem narrativa. Um poema é a expressão de ideias ou de sentimentos em linguagem que ninguém emprega, pois que ninguém fala em verso.

Exemplos de Uso

  • Na terapia narrativa, pacientes 'reescrevem' suas histórias pessoais, exemplificando como a escrita pode ser um esquecimento reconstrutivo.
  • Os booktubers que criam comunidades em torno da leitura demonstram como a literatura gera realidades sociais paralelas.
  • A popularidade dos universos ficcionais expandidos (como Harry Potter ou Marvel) mostra nosso apetite por realidades simuladas.

Variações e Sinônimos

  • A arte é a mentira que nos permite conhecer a verdade (Pablo Picasso)
  • A ficção é a verdade dentro da mentira (Stephen King)
  • Toda a literatura é, em última análiseão, autobiográfica (Jorge Luis Borges)
  • A poesia não são os pensamentos que têm, mas os pensamentos que respiram (Emily Dickinson)

Curiosidades

Fernando Pessoa criou mais de 70 heterónimos - personalidades literárias completas com biografias, estilos e visões de mundo distintas. Esta prática radical de 'simulação da vida' através da literatura materializa literalmente sua teoria sobre o ato de escrever como esquecimento de si mesmo.

Perguntas Frequentes

Por que Fernando Pessoa considera que 'escrever é esquecer'?
Pessoa via a escrita como um processo de abstração da realidade imediata, onde o autor se liberta das contingências da vida quotidiana para criar mundos alternativos.
Como esta citação se relaciona com os heterónimos de Pessoa?
Os heterónimos exemplificam perfeitamente a ideia de literatura como simulação - cada um representa uma 'vida' ficcional completa, demonstrando como a escrita pode criar existências paralelas.
Esta visão da literatura é pessimista?
Não necessariamente. Embora apresente a literatura como distanciamento da vida, Pessoa valoriza esse afastamento como espaço de liberdade criativa e compreensão indireta da existência.
A citação ainda se aplica às formas literárias digitais?
Sim, talvez mais do que nunca. Blogs, redes sociais e ficção interativa continuam a 'simular a vida', criando realidades narrativas que coexistem com a experiência quotidiana.

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