Frases de Clarice Lispector - É a ira de Deus. E se essa es...

É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver.
Clarice Lispector
Significado e Contexto
A citação articula uma visão pessimista da condição humana, utilizando a metáfora bíblica do dilúvio para expressar um desejo de destruição total, mas sem a possibilidade de redenção simbolizada pela arca de Noé. A 'ira de Deus' representa forças cósmicas ou destinos implacáveis perante os quais nos sentimos impotentes. A segunda parte revela a autocrítica: a humanidade falhou em 'fazer um mundo onde viver' e, na sua 'paralisia', nem sequer sabe como viver dentro do mundo falhado que criou. É uma dupla condenação – do mundo e da nossa incapacidade de nele existir de forma significativa.
Origem Histórica
Clarice Lispector (1920-1977) escreveu no contexto do século XX, marcado por guerras mundiais, regimes totalitários e uma crescente desilusão com os projetos utópicos da modernidade. A sua obra, profundamente introspetiva e filosófica, reflete esta crise de sentido. Embora a origem exata desta citação específica seja de difícil rastreio (podendo ser de uma crónica, entrevista ou texto menos conhecido), ela é totalmente consonante com os temas da sua maturidade literária: a angústia, o estranhamento perante a existência e a busca, muitas vezes frustrada, por autenticidade.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância pungente hoje, ecoando sentimentos contemporâneos de impotência perante crises globais como as alterações climáticas (a 'escuridão que se transforma em chuva'), a desigualdade social, a polarização política e a ansiedade existencial amplificada pela vida digital. A 'paralisia' descrita por Lispector assemelha-se à sensação de 'impasse' que muitos experienciam perante problemas complexos, onde a ação individual parece insignificante. É um espelho literário para a eco-ansiedade e a crise de sentido do século XXI.
Fonte Original: A origem precisa desta citação é de difícil determinação em fontes canónicas. Pode provir de uma das suas muitas crónicas para a imprensa brasileira (como no Jornal do Brasil) ou de uma entrevista. Não está identificada como pertencente a uma das suas principais obras de ficção, como 'A Paixão Segundo G.H.' ou 'A Hora da Estrela'.
Citação Original: É a ira de Deus. E se essa escuridão se transformar em chuva, que volte o dilúvio, mas sem a arca, nós que não soubemos fazer um mundo onde viver e não sabemos na nossa paralisia como viver.
Exemplos de Uso
- Num debate sobre inação climática: 'Perante a ira do clima, sentimo-nos como na citação de Lispector: à espera de um dilúvio sem arca, paralisados.'
- Num ensaio sobre depressão coletiva: 'A paralisia de que fala Lispector não é apenas individual; é social, impedindo-nos de reconstruir o mundo.'
- Numa reflexão artística sobre o futuro: 'A sua instalação evoca aquele dilúvio sem arca, um fim sem recomeço, tal como na visão desolada de Clarice.'
Variações e Sinônimos
- "O mundo está em ruínas e nós perdemos o manual de instruções."
- "À beira do abismo, congelados pelo medo."
- "A humanidade, arquiteta do seu próprio desespero."
- Ditado popular: "Deitar abaixo e fazer de novo" (mas aqui sem a capacidade de 'fazer de novo').
Curiosidades
Clarice Lispector nasceu na Ucrânia e chegou ao Brasil ainda bebé, fugindo dos pogroms antissemitas. Esta experiência de desenraizamento e fuga inicial pode ter influenciado a sua sensibilidade aguda para temas de perda, desamparo e a busca por um 'lar' existencial, ecoando na ideia de um 'mundo onde viver' que a citação menciona.


