Frases de Fernando Pessoa - Ver e ouvir são as únicas co...

Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar.
Fernando Pessoa
Significado e Contexto
A citação estabelece uma dicotomia entre os sentidos considerados 'nobres' (visão e audição) e os 'plebeus e carnais' (tato, olfato, paladar). Pessoa sugere que ver e ouvir são atividades distanciadas, associadas ao conhecimento, à arte e à reflexão intelectual, permitindo uma apreensão do mundo sem contaminação física direta. O tato, por outro lado, simboliza o contacto imediato, o corpóreo e o efémero, sendo por isso inferiorizado. A 'única aristocracia é nunca tocar' reforça a ideia de que a verdadeira elevação espiritual ou intelectual reside na capacidade de observar e compreender sem se envolver materialmente, uma postura típica do dandismo e do intelectualismo finissecular.
Origem Histórica
Fernando Pessoa (1888-1935) escreveu no contexto do Modernismo português e das correntes estéticas do início do século XX, como o Decadentismo e o Simbolismo. A frase reflete influências do esteticismo e de uma certa frieza intelectual, comum em autores que valorizavam a arte pela arte e uma postura distante perante a vida. É um pensamento alinhado com a sua persona literária mais cerebral e por vezes niilista, que buscava a verdade na abstração e na introspeção, em oposição ao engagement físico ou emocional direto.
Relevância Atual
Esta frase mantém relevância ao questionar a nossa relação com a experiência num mundo hiperestimulado e material. Num era digital onde o visual e o auditivo dominam (ecrãs, podcasts), a reflexão convida a ponderar se esta predominância nos afasta de uma experiência sensorial completa ou se, pelo contrário, nos eleva a uma esfera mais contemplativa. Além disso, dialoga com debates contemporâneos sobre privacidade, distanciamento social e a valorização da introspeção versus a experiência tátil e comunitária.
Fonte Original: A citação é atribuída a Fernando Pessoa, frequentemente citada em antologias e estudos sobre a sua obra. Pode ser encontrada em contextos de aforismos ou pensamentos soltos, comuns na sua produção fragmentária. Não está identificada num livro específico de título único, fazendo parte do seu vasto legado de textos e anotações.
Citação Original: Ver e ouvir são as únicas coisas nobres que a vida contém. Os outros sentidos são plebeus e carnais. A única aristocracia é nunca tocar.
Exemplos de Uso
- Num ensaio sobre estética digital: 'A experiência da realidade virtual exemplifica a aristocracia de ver e ouvir, criando mundos onde nunca se toca.'
- Em discussão sobre relações interpessoais: 'Mantemos uma aristocracia emocional nas redes sociais, onde vemos e ouvimos, mas raramente tocamos.'
- Na crítica de arte: 'A fotografia captura o instante com a nobreza do olhar, preservando a distância que Pessoa valorizava.'
Variações e Sinônimos
- 'Os olhos são a janela da alma.' (Provérbio popular)
- 'Quem vê cara não vê coração.' (Ditado português)
- 'A distância acrescenta encanto.' (Frase comum)
- 'O silêncio é de ouro.' (Provérbio sobre a audição seletiva)
Curiosidades
Fernando Pessoa criou dezenas de heterónimos (personalidades literárias distintas com biografias e estilos próprios), como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Esta citação, embora atribuída a 'Pessoa ele-mesmo', reflete a complexidade do seu pensamento, que muitas vezes se distribuía por essas diferentes vozes, cada uma com uma visão única sobre a experiência sensorial e a existência.


