Frases de Séneca - Quem decide um caso sem ouvir ...

Quem decide um caso sem ouvir a outra parte não pode ser considerado justo, ainda que decida com justiça.
Séneca
Significado e Contexto
A citação de Séneca sublinha um princípio fundamental da justiça: a legitimidade de uma decisão depende tanto do processo como do seu resultado. Argumenta que, mesmo que a conclusão de um caso seja objetivamente correta ou 'justa' no seu conteúdo, o ato de a proferir sem permitir que a outra parte se expresse invalida essa justiça. Isto porque a justiça não é apenas uma qualidade do veredicto final, mas também uma característica do método utilizado para o alcançar. Um processo que ignora o contraditório e a defesa é, por natureza, arbitrário e parcial, minando a confiança no sistema e desrespeitando a dignidade do indivíduo julgado. Para Séneca, filósofo estoico, a justiça está intrinsecamente ligada à razão e à virtude. Um ato só pode ser verdadeiramente justo se for praticado de acordo com a razão, a qual exige a consideração de todos os factos e perspetivas. Ignorar uma das partes significa operar com informação incompleta e, portanto, de forma irracional. Assim, a frase defende que a justiça processual – o 'devido processo legal' – é uma condição *sine qua non* para que qualquer resultado possa ser considerado moralmente válido e socialmente aceitável.
Origem Histórica
Séneca (c. 4 a.C. – 65 d.C.) foi um filósofo, estadista e dramaturgo romano, uma das figuras mais proeminentes do Estoicismo. Viveu durante o principado de Nero, inicialmente como seu tutor e depois como conselheiro, numa época de grande poder imperial e, por vezes, de arbitrariedade judicial. O Estoicismo, escola filosófica que advogava o domínio das paixões pela razão, a virtude como único bem e a aceitação do destino, influenciou profundamente o seu pensamento sobre ética, governação e justiça. Esta citação reflete a preocupação estoica com a ação correta e a equidade, aplicada ao contexto legal e social do Império Romano.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância extraordinária nos dias de hoje, servindo como um pilar ético para sistemas jurídicos modernos, mediação de conflitos, gestão empresarial e debates públicos. Em democracias, o princípio do 'contraditório' e do 'devido processo legal' é constitucional. Nas redes sociais e na comunicação, lembra-nos da importância de ouvir todos os lados antes de formar uma opinião ou emitir um julgamento. No local de trabalho, aplica-se a avaliações justas e a resolução de disputas. É um antídoto contra a desinformação, os julgamentos precipitados e a polarização, promovendo um diálogo mais informado e equitativo.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a Séneca e associada aos seus escritos sobre ética e justiça, embora a localização exata na sua vasta obra (como as 'Cartas a Lucílio', 'Da Ira' ou 'Dos Benefícios') possa variar conforme as compilações de máximas e sentenças.
Citação Original: Qui statuit aliquid parte inaudita altera, aequum licet statuerit, haud aequus fuerit. (Latim)
Exemplos de Uso
- Num processo disciplinar no trabalho, um manager deve ouvir a versão do empregado antes de tomar qualquer decisão, sob pena de a sanção, mesmo que merecida, ser vista como injusta.
- Num debate público sobre uma política controversa, um governante que apenas consulta um grupo de interesse, ignorando os argumentos dos opositores, viola este princípio de equidade processual.
- Antes de partilhar ou comentar uma notícia polémica nas redes sociais, o utilizador sábio procura ouvir ou ler a perspetiva de todas as partes envolvidas, evitando julgamentos baseados numa narrativa única.
Variações e Sinônimos
- Audiatur et altera pars (Que se ouça também a outra parte – princípio jurídico romano).
- Ninguém pode ser condenado sem ser ouvido.
- Justiça cega, mas não surda.
- Quem julga sem ouvir, erra por ouvir metade.
Curiosidades
Séneca, apesar de pregar a simplicidade e a virtude, era uma das pessoas mais ricas do Império Romano. A sua morte, por ordem de Nero, foi por suicídio forçado, encenando de forma estoica os seus próprios ensinamentos sobre a aceitação do destino.


