Frases de Fernando Pessoa - Somos contos contando contos, ...

Somos contos contando contos, nada.
Fernando Pessoa
Significado e Contexto
A frase 'Somos contos contando contos, nada' encapsula uma visão profundamente existencialista da condição humana. No primeiro nível, Pessoa propõe que a identidade individual não é uma essência fixa, mas sim uma construção narrativa em constante evolução - somos 'contos' (histórias) que se vão formando através das nossas experiências e perceções. No segundo nível, ao acrescentar 'contando contos', o autor sugere que não apenas somos histórias, mas também narradores ativos que damos sentido à nossa existência através da linguagem e da partilha. O termo final 'nada' introduz uma dimensão niilista ou desconstrucionista, questionando a substância última por trás destas narrativas, como se todo o edifício da identidade repousasse sobre um vazio fundamental. Esta perspetiva reflete a fragmentação do eu característica da modernidade e antecipa conceitos contemporâneos das ciências sociais e da psicologia, como a 'narrativa identitária'. Pessoa, através dos seus heterónimos, viveu literalmente esta ideia, criando múltiplas personalidades literárias com biografias e estilos distintos. A frase convida a uma reflexão sobre a autenticidade do self: se somos compostos por histórias que contamos a nós mesmos e aos outros, onde reside a nossa verdadeira essência?
Origem Histórica
Fernando Pessoa (1888-1935) é o maior poeta português do século XX e uma figura central do Modernismo. Viveu durante um período de grandes transformações sociais, políticas e culturais em Portugal e na Europa, marcado pelo fim da monarquia, pela instabilidade da Primeira República e pelo crescente questionamento dos valores tradicionais. A sua obra, escrita maioritariamente nas décadas de 1910 e 1920, reflete o desassossego e a crise de identidade típicos da modernidade. Pessoa desenvolveu o conceito dos heterónimos (como Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro) - não pseudónimos, mas personalidades literárias completas com estilos e visões de mundo próprias. Esta citação, embora de autoria atribuída ao 'Pessoa ele-mesmo' (ortónimo), ecoa o tema da multiplicidade do eu que percorre toda a sua obra.
Relevância Atual
A frase mantém uma relevância extraordinária no século XXI, numa era dominada pelas redes sociais e pelas narrativas digitais. Vivemos numa sociedade onde constantemente 'contamos contos' sobre nós mesmos através de perfis online, partilhas e histórias (stories). A ideia de que a identidade é performativa e construída através da narrativa é central na psicologia contemporânea, na sociologia e nos estudos de comunicação. Além disso, num mundo pós-verdade, onde as narrativas muitas vezes se sobrepõem aos factos, a reflexão de Pessoa sobre a natureza construída das nossas realidades é mais pertinente do que nunca. A frase também ressoa com debates filosóficos atuais sobre o livre-arbítrio, a consciência e a natureza do self.
Fonte Original: A citação é frequentemente atribuída a Fernando Pessoa e circula em antologias e coleções de suas frases. Embora a origem exata (livro ou poema específico) seja por vezes difícil de precisar devido à vastidão e fragmentação da sua obra (muito publicada postumamente), ela é considerada autêntica e representativa do seu pensamento. Pode estar relacionada com textos do seu espólio ou com a sua produção em prosa reflexiva.
Citação Original: Somos contos contando contos, nada.
Exemplos de Uso
- Num ensaio sobre identidade digital: 'Nas redes sociais, somos verdadeiramente contos contando contos, criando versões curadas de nós mesmos.'
- Numa terapia narrativa: 'A abordagem parte da premissa de que somos, de facto, contos contando contos, e que reescrever a nossa história pode transformar a nossa vida.'
- Num debate sobre pós-verdade: 'A frase de Pessoa antecipou a era em que as narrativas, os 'contos', moldam a perceção da realidade mais do que os factos brutos.'
Variações e Sinônimos
- "A vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, significando nada." - William Shakespeare (Macbeth)
- "O homem é um animal que conta histórias." - Versão de um conceito antropológico
- "Vivemos na narrativa que construímos sobre nós." - Conceito psicológico moderno
- "Cada um de nós é um romance por escrever." - Ditado popular
Curiosidades
Fernando Pessoa deixou um baú com mais de 25.000 documentos manuscritos - poemas, textos filosóficos, cartas, horóscopos e até receitas. Este espólio, descoberto após a sua morte, continua a ser estudado e publicado, revelando novas camadas do seu pensamento complexo. A frase 'contos contando contos' reflete esta ideia de uma obra e de um self em constante descoberta e construção.


