Frases de Mia Couto - Quero pôr os tempos, em sua m...

Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.
Mia Couto
Significado e Contexto
Esta citação revela o conflito humano entre a tentativa de organizar cronologicamente as experiências passadas e a natureza rebelde das memórias. O autor expressa o desejo de colocar os tempos 'em sua mansa ordem', sugerindo uma necessidade humana de dar sentido e sequência aos eventos, especialmente aqueles marcados por 'esperas e sofrências'. No entanto, as lembranças resistem a esta organização, existindo num espaço ambíguo entre o desejo de aniquilação ('vontade de serem nada') e a capacidade de nos arrancar do momento atual ('roubarem do presente'). A dualidade apresentada por Mia Couto reflete a complexidade da memória humana: por um lado, queremos esquecer as dores passadas; por outro, essas mesmas memórias nos definem e constantemente interferem na nossa perceção do presente. A frase captura a essência de como o passado nunca é completamente domado, mantendo-se como uma força ativa que molda continuamente a nossa identidade e experiência temporal.
Origem Histórica
Mia Couto, pseudónimo de António Emílio Leite Couto, é um dos mais importantes escritores moçambicanos contemporâneos, nascido em 1955. A sua obra emerge do contexto pós-colonial de Moçambique, refletindo sobre identidade, memória coletiva e as cicatrizes históricas do colonialismo e da guerra civil. A citação exemplifica a sua característica fusão entre realismo mágico e reflexão filosófica sobre a condição humana, comum na sua produção literária a partir dos anos 1990.
Relevância Atual
Esta frase mantém extrema relevância contemporânea numa era de sobrecarga informativa e redes sociais, onde constantemente revivemos e recuramos memórias digitais. A luta entre querer organizar o passado e ser dominado por ele ressoa com questões modernas de saúde mental, particularmente relacionadas com trauma, ansiedade e a dificuldade de viver plenamente no presente. Num mundo que valoriza a produtividade e o controlo, a ideia de que as memórias 'desobedecem' lembra-nos dos limites da nossa capacidade de gerir a experiência subjetiva do tempo.
Fonte Original: A citação é atribuída a Mia Couto, mas a obra específica não é identificada na consulta. É característica do seu estilo presente em várias obras, possivelmente de romances como 'Terra Sonâmbula' (1992), 'A Varanda do Frangipani' (1996) ou coletâneas de contos.
Citação Original: Quero pôr os tempos, em sua mansa ordem, conforme esperas e sofrências. Mas as lembranças desobedecem, entre a vontade de serem nada e o gosto de me roubarem do presente.
Exemplos de Uso
- Na terapia, muitos pacientes descrevem como tentam organizar memórias traumáticas, mas estas 'desobedecem' e surgem inesperadamente.
- Em contextos de luto, as pessoas frequentemente experienciam esta tensão entre querer esquecer e ser constantemente relembrado.
- Artistas contemporâneos exploram esta ideia em instalações que representam a fragmentação da memória e sua resistência à ordenação cronológica.
Variações e Sinônimos
- O passado é um país estrangeiro
- As memórias são sombras que nos perseguem
- O tempo cura todas as feridas, mas deixa cicatrizes
- Quem esquece o passado está condenado a repeti-lo
- Entre a memória e o esquecimento há um abismo
Curiosidades
Mia Couto, além de escritor, é biólogo de formação, o que influencia a sua escrita através de metáforas orgânicas e uma atenção particular aos processos naturais - incluindo, como nesta citação, a ideia de memórias como entidades com 'vontade' própria.


